A requalificação da Urbanização do Viso Sul, que implica o abate generalizado de árvores, tem gerado revolta e tristeza na população. A obra, correspondente a um investimento de mais de meio milhão de euros (€ 512 400, 95), foi entregue pela Câmara Municipal de Viseu à empresa Irmãos Almeida Cabral, Lda.

Em conversa com os moradores, o Interior do Avesso tomou conhecimento que a requalificação foi iniciada sem que a população fosse atempadamente informada ou consultada. Havendo quem só se tenha apercebido do que estava a acontecer quando começou o abate das árvores de toda a urbanização, como testemunha um dos moradores, Luís Martins, “a única coisa que dei conta foi que está a placa além no início da urbanização e que as pintinhas nas árvores [pintas vermelhas] indicavam que ia ser uma razia total.”

Luísa Leitão, uma outra moradora, relata uma experiência semelhante “tive conhecimento unicamente quando a Câmara pôs o painel grande, aquele outdoor a dizer que ia iniciar a obra, isso é que me despertou para o problema e quando comecei a ver o abate das árvores comecei-me a questionar sobre o que é que seria a requalificação e apercebi-me que havia alguns aspetos que não me agradavam.” Para além disso pensa que “o projeto não foi divulgado da forma que deveria ter sido para os moradores poderem intervir e terem uma palavra a dizer”, algo que considera “fundamental”.

A opinião das pessoas com quem falámos é de desacordo com a forma como a requalificação está a ser levada a cabo. “Está a ser mal pensada, mal executada e o timing é completamente inapropriado”, sintetiza Luís Martins. A moradora Dulce Chaves lamenta que as árvores, que estariam a danificar os passeios, não tenham sido escolhidas adequadamente “agora de repente cortar assim tudo… É complicado”, confessando-se triste “porque tenho noção que, mesmo que substituam as árvores, vão demorar muitos anos até termos uma coisa semelhante ao que tínhamos.”

Para Luísa Leitão, “o abate das árvores de forma indiscriminada sem pensar no aproveitamento das árvores no tal plano de requalificação acho que é uma coisa completamente absurda, numa época que se apela para a preservação do ambiente”. Salienta ainda os custos da operação, “apesar de ser apontado que as árvores que estão cortadas agora vão ser substituídas isso também tem custos! E são os munícipes que também estão a ser lesados!”

Neste momento os moradores já notam as diferenças, sentido as ruas descaracterizadas, as casas desprotegidas, o ambiente menos agradável e a temperatura mais quente.

Moradores já manifestaram preocupação através de cartas

Tivemos conhecimento que, pelo menos um morador e a administração de um dos lotes da Urbanização Viso Sul, endereçaram cartas à Comissão de Coordenação das Obras de Requalificação da Urbanização do Viso Sul, alertando para a preocupação da comunidade com o desenrolar das obras de requalificação, após o alerta dado “por vários moradores, nomeadamente do corte de árvores que todos consideramos essenciais e importantes na harmonia do nosso bairro”.

Nas cartas, que indicam que “os residentes nesta zona não foram informados sobre esta intervenção, não existindo nenhum edital para que se pudesse atempadamente intervir”, são pedidos esclarecimentos sobre a intervenção prevista no bairro, qual o tempo previsto de execução da obra, se o abate de árvores será “total” e se “há a possibilidade de algumas árvores serem poupadas, e subsequentemente integradas no novo plano de reordenamento”.

Crianças pedem: “não cortem a minha árvore”

Podem ser vistos alguns cartazes nas árvores a pedir que as mesmas não sejam cortadas. A moradora Luísa Leitão explica que foram as crianças que “têm tomado a atitude de tentar preservar a sua árvore”, “porque as árvores também têm um valor sentimental, para além do ambiental também têm um valor sentimental, ou porque naquela altura que vieram residir ela estava pequenina e viram-na crescer, ou porque é na zona das brincadeiras das crianças. Pronto, todos nós temos vínculos a determinadas zonas onde residimos e isso também faz parte do ser humano e acho que numa época em que estamos todos tão desequilibrados com isto do Covid, isto também vem desestabilizar.”

Bloco de Esquerda desafia município a parar estes abates

Na Assembleia Municipal de Viseu de hoje, 26 de junho, a deputada do Bloco de Esquerda interpelou o presidente da Câmara Municipal de Viseu no sentido de pôr termo ao que considerou um crime ambiental. Em causa não está uma requalificação que tenha em consideração todas as pessoas com mobilidade reduzida, que deveria ser feita em todo o concelho, mas antes a forma como esta se faz, não incluído no projecto o património ambiental existente.

Também na Assembleia de Freguesia de Ranhados, o membro eleito pelo Bloco mostrou estar em desacordo, tendo mesmo esta contado com a participação e intervenção de um morador do bairro que ali deixou o seu descontentamento perante este atentado.

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