Cova da Beira, 2013. Foto de Nuno Morão | Flickr

Na rúbrica “Espaço Público”, no jornal Público de hoje, José Reis, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais, faz uma reflexão sobre a reorganização interna do país.

No texto do Público, José Reis escreve que “nas duas décadas deste século, e sobretudo depois de a austeridade ter desabado sobre nós, Portugal teve a maior convulsão territorial da nossa contemporaneidade. Refiro-me a uma alteração profunda das relações entre as regiões, cujas evoluções se tornaram assimétricas e contrastantes como nunca foram. Isso resultou de algo muito preciso: uma forma de crescimento “unipolar”, apenas centrado na Área Metropolitana de Lisboa (AML), com definhamento de todos os outros espaços, sejam eles urbanos, rurais, litorais ou interiores”. 

Em exemplo, José Reis refere que “usando as estatísticas demográficas do INE e as suas estimativas mais recentes. Entre 2001 e 2018, a AML cresceu 6,3%, enquanto o Norte, no Centro e Alentejo se registaram variações de -1,3%, -5,7% e -9,1%”. 

“Seremos nós capazes de redescobrir o país inteiro e de nos organizarmos internamente noutra base, mais saudável? Vamos dar atenção às cidades médias, aos pequenos meios, às regiões, aos diferentes territórios, em vez de apenas lhes escoarmos as respetivas populações? Vamos reequilibrar o país e desfazer um quadro explosivo?”, questiona José Reis. 

Segundo o professor da Universidade de Coimbra precisamos de um sistema urbano revigorado e refere duas regiões do país, “ em Trás-os-Montes, de Chaves a Vila Real e à Régua, ou no Centro Interior, da Guarda à Covilhã e pelo Fundão, há uma população urbana significativa, economias que resistem, ensino superior, serviços públicos que ainda não definharam por inteiro e pequenos meios rurais que dependem mais destas proximidades do que de políticas abstratas. E, mesmo assim, estes territórios perderam mais de 14% da sua população”. E acrescenta dois pontos afirmando que isto “não deveria ser possível, num país que cuidasse de si, que a única cidade do continente que, no litoral e em relação ao interior, podia ter um papel de reequilíbrio entre as duas áreas metropolitanas e tem mais de 100 mil habitantes, Coimbra, tivesse regredido demograficamente 9,8% em 20 anos (um comportamento igual ao do Alentejo)”. Continua “ assim como causa perplexidade que, mesmo num quadro de desenvolvimento como o que temos tido, a própria Área Metropolitana do Porto tenha perdido 2,1% da sua população entre 2011 e 2018”. 

Termina a rúbrica do jornal Público com a determinação de que isto não pode continuar a ser assim e “se for, é porque não seremos capazes de ter política industrial ou agrícola nem seremos capazes de ter a capacidade de recriar um mercado do trabalho robusto e justo ou de refazer a vida das famílias”. 

(Escrito por DG)

Texto original de José Reis na rúbrica Espaço Público do jornal Público | 2 de maio de 2020

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