A nossa agricultura tem sem dúvida muita qualidade. A maioria dos nossos produtos são de alta qualidade, mesmo comparados com os melhores da Europa. Antes demais referir que a UE tem as mais rígidas restrições de qualidade, sanidade e respeito pelo meio ambiente do Mundo. Basta ver que, quando um poderoso da Arábia Saudita, um capitalista chinês (ao ponto que chegámos…!), ou um barão oligárquico africano, importa produtos para si, exigem que estes têm de ter o selo de qualidade da UE. É, portanto, reconhecidamente o mercado agroalimentar de maior qualidade e segurança. Termos produtos que competem de frente com os melhores produtos neste mercado tem obrigatoriamente de nos encher de orgulho. E não é um orgulho apenas de conversa à mesa de jantar, ou um orgulho de palmadinha nas costas dos produtores agrícolas: “Sim senhor, nós somos gente que quando quer é tão boa quanto a estrangeirada!”. Ok, é importante este orgulho, mas eu refiro-me que como País temos de ter um orgulho consequente, ou seja, se somos assim tão bons nesta área, temos de estrategicamente investir nesta área, não só financeiramente, mas acima de tudo, politicamente, reservando à agricultura a moldagem de estruturas nacionais já existentes, como criação de novas estruturas. 

Se por um lado temos de equilibrar a balança comercial, importando menos produtos agroalimentares, por outro temos de a equilibrar, exportando mais produtos deste tipo. Moldar estruturas já existentes passaria, por exemplo, por criar restrições à importação de bens alimentares que estivessem a ser produzidos em Portugal, com destino ao consumo em áreas do Estado como cantinas, messes, jantares oficiais, cozinhas sociais, entre outras. Precisamos de nos valorizar, precisamos de comprar mais português e menos estrangeiro, precisamos de procurar o que é nosso e deixar o estrangeiro para os momentos em que a nossa produção já não é suficiente para nos alimentar. 

É muitíssimo difícil de competir em Portugal com outros países a nível de preço. Vou-vos dar um exemplo que eu considero de loucos, e que acontece todos os dias: imaginem que produzem, batatas, por exemplo. O mercado está carregado de batata não nacional, e surge uma oportunidade de negócio com um “nuestro hermano”. Imaginem agora que lhe vendem um camião TIR de batata a uns, já de si, míseros €0,10/kg. O caro “señor” entra no seu camião, pega no seu bloco de guias e facturas, passa uma nova guia de transporte, e uma factura a um cliente seu português, com o valor de €0,08/kg. Pega no camião, encaminha-o até ao seu cliente português e faz o negócio. Vem todo contente para Espanha, com mais um negócio feito. Imagino que estejam a franzir o sobrolho. “Então o caro vizinho compra a €0,10/kg e vende a €0,08/kg? Das duas uma, ou este indivíduo não percebe patavina de negócios, ou o João Simão anda a apanhar muito sol na moleirinha!” Compreendo a confusão. E se vos disser que Espanha tem um apoio financeiro à exportação, pelo que aquele produtor, que está a actuar como intermediário, e a aldrabar “ligeiramente” o sistema (ao nem sequer entrar em Espanha com a carga para que possa ser importada para depois ser exportada) feitas as contas com este apoio estatal que referi, terá lucro nesta transacção, vendendo a vossa batata mais barata que vocês próprios (produtores) a conseguem vender! Já faz mais sentido agora? Pois… é impossível concorrer lealmente nestas condições, pelo que a única forma de o conseguir, é o produtor português ter atrás de si o consumidor português, que deve procurar o produto nacional. Tantas vezes consome produto português sem saber, a fazer ganhar dinheiro quem não tem ao vento a bandeira nacional. Daí a importância de comprar português e local (de novo uma referência à crónica anterior), e porque não, directamente ao produtor. Neste contexto, aproveito a oportunidade para louvar a criação há poucos dias, de uma plataforma estatal que vai encurtar 

distâncias entre produtores e consumidores – www.alimentequemoalimenta.pt , e incentivo- vos fortemente a lá passarem e dar uma olhadela. Um novo paradigma para um problema antigo e acentuado nesta crise pandémica. 

Por outro lado, teríamos de criar novas estruturas de apoio à exportação de produtos muito bem cotados nos mercados internacionais, cujas “trends” estão ciclicamente a variar, sendo que acredito que a qualidade de certos produtos portugueses tem a qualidade de criar “trends” próprias. A relação da tríade “Turismo, Gastronomia, Portugalidade”, é indissociável, e tem uma sinergia que transpira, para qualquer mercado, a harmonia entre as partes, em que muitas vezes se torna impossível ver onde estão os limites que as dividem e identificam. Urge a criação de vectores de exportação, com um trabalho de marketing criativo e muito bem feito, por aqueles que sabem o potencial contido nesta tríade, sendo que, após esta crise “Covidiana” passar, e vos garanto que vai passar, (deixem-se de tretas do “nada vai voltar a ser o mesmo”, esses dramatismos catastro-saudosistas nunca nos levarão a lado algum), o turismo voltará, a Portugalidade voltará, e a nossa gastronomia sairá à rua mais uma vez. 

As fruteiras do Oeste, como referi na minha crónica anterior, as pastagens do Alentejo com as suas Alentejanas e Mertolengas a pastar, o nosso Queijo da Serra da Estrela , produzido com o leite das nossas Ovelhas Serra da Estrela, os nossos mirtilos de Sever do Vouga que são colhidos um mês antes de qualquer parte do mundo (ou seja, quando os stocks mundiais de mirtilo estão mais em baixa), o nosso azeite de Trás os Montes, que tem sido considerado de um tempo a esta parte o melhor azeite do mundo apenas, nada de mais, o nosso vinho maravilhoso do Douro, do Dão, bem… vou parar porque já estou a salivar, e vocês já perceberam o que quero dizer, todos estes produtos têm associados a si imagens, cheiros, pessoas, climas e relevos completamente diferentes, num gigante pequeno país do Sudoeste Europeu. Somos tão maus nisto, que é para cá que os poderosos do Norte Europeu (mas nada nortenhos, não confundamos as coisas) vêm relaxar e descansar das suas metropolitanas vidas. Ou seja, esta Portugalidade é vendável, é apreciada, é procurada. E se o é suficientemente para o estrangeiro cá vir apreciá-la, também o é, para o estrangeiro a receber às suas mesas. Agora, temos é de lá fazer chegar estes produtos, estas características, estas qualidades. Precisamos de, como país, dar corda aos sapatos neste sentido. 

Por muito que nos custe, por muito que se torça o nariz, para isto acontecer é necessário a intervenção da política, e principalmente a nível Europeu. Ver todo o nosso potencial, qualidade e mérito, mandado literalmente para a lixeira por falta de escoamento, é algo que deixa o nosso interior… do avesso.

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João Simão, nascido a 30 de Outubro de 1981, Técnico de Gestão Agrícola desde 2001, finalista em Engenharia Zootécnica. Trabalhou em Agricultura e em Indústria no sector da Logística. Um amador profissional na música, fotografia, humor e carpintaria. Nasceu nas Caldas da Rainha, cresceu em Aveiro e desde 2016 mudou-se de armas e bagagens para Viseu onde reside, estuda e trabalha actualmente na Escola Superior Agrária de Viseu. Inconformado com injustiças sociais, com o que a Agricultura portuguesa podia ser e não é (uma das melhores do Planeta), um amante sério da Portugalidade e das suas gentes. Pai de um Viseense, que luta para que o mundo a que veio se torne qualquer coisa melhor quando o tiver de enfrentar, sempre com coragem, amor, solidariedade e frontalidade.

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