Foto de Eroski e Caprabo | Flickr

No passado, certos pingos já me deram amargos de boca. Cheguei a ir a uma grande superfície em Viseu, que obsessivamente passava a mensagem que tinha os melhores preços de mercado, sem cartões, nem promoções (parece que se fartaram desse slogan rapidamente). Ao ir à sua secção de frutas legumes frescos, fiz o que faço sempre, e dou uma ronda para listar os produtos que são portugueses, pois são só apenas esses que levo para casa, e após a ronda a minha lista estava a zero. Tomates, alfaces e pepinos espanhóis; feijão verde marroquino; maçã, uvas e limões franceses; laranjas de África do Sul. Não havia um único legume ou fruta português. Um! Já tinha percebido este padrão há muito tempo, mas não ter encontrado um único produto português, foi a gota de água, e decidi chamar o gerente de loja. Coitado, ele era tão funcionário como a senhora da limpeza no meio daquela máquina gigantesca, e de certeza que não foi importunar o seu superior hierárquico com a minha indignação, até porque nas limpezas ganha-se menos e trabalha-se mais, mas ainda assim decidi marcar a minha posição. Bem, o homem estava mesmo entre o patrão e o cliente, e quase parecia um adepto do meu Beira-Mar de tão amarelo que era o seu sorriso. Um pouco como a agressividade do mar a embater num paredão, não levava a lado nenhum, para além do desconforto do paredão. 

Uns anos depois dei assistência técnica e comercial a agricultores na zona Oeste do País, minha região natal, onde predominam os fruticultores com milhares de hectares de macieiras, pereiras, pessegueiros e ameixeiras. Aí deparei-me com o verdadeiro paradigma do produtor português a vender para uma grande superfície também ela portuguesa, ou mais ou menos vá, já que os seus impostos não são pagos em Portugal, mas de forma re-pug-nan-te num país da “união” Europeia. Portanto, começa logo mal, para além de amargoso, pingo a pingo… passa a galinha fome. Avante. Os produtores vendiam a maçã lavada, calibrada (ou seja, através de maquinaria e/ou funcionários, dividam as maçãs por tamanhos consoante as encomendas) e ensacada, a 25 cêntimos o Kg, e com contratos onde tiveram de concordar receber a 90 e em alguns casos a 120 dias, quando eles próprios tinham de pagar os seus factores de produção a 30, no máximo 60 dias. Ao nos dirigirmos a essa mesma grande superfície, percebíamos que essa maçã era vendida a €1,45 ao consumidor final, pago na hora. Estamos a falar de uma margem de receita de mais de 500%! Só para transportar, armazenar e distribuir. Sem riscos climatéricos, biológicos, económicos ou financeiros, e com um contrato absolutamente favorável que tem apenas um lado positivo para o produtor: escoamento. Ora, cá embatemos na questão do meu anterior artigo. O produtor é obrigado a escolher o menos mau dos venenos: ou vende a um preço justo mas sem garantias de escoamento, e como tal, com uma total limitação de dimensionamento e sustentabilidade da sua empresa, ou, garante o escoamento mas com uma total incapacidade de pagar bons salários, optar por técnicas mais amigas do ambiente e como tal, mais dispendiosas e de ter um crescimento proporcional à qualidade do trabalho desenvolvido na sua empresa. 

Bem, vos garanto, que depois de ter estado em contacto directo e próximo com esta realidade, comecei a coçar a cabeça sobre adquirir produtos frescos portugueses nestas grandes superfícies. Sim, continua a ser melhor que motivar estes colossos burgueses a comprar estrangeiro, mas por outro lado, mais de 500% de margem para o intermediário?! E o desgraçado do produtor é que tem que plantar, fertilizar, tratar, podar, regar, podar, colher, armazenar, seleccionar, lavar, calibrar e ensacar? E arriscar-se a anos de seca, cheia, pragas, infecções, incêndios, entre outros? E garantir o fornecimento do que está contratualizado, nem que tenha de ir comprar ao vizinho do lado? Ainda hoje, só compro português, mas sempre com este desconforto em mente. 

E eis que chegamos à altura da Páscoa de 2020, onde passamos pela maior crise de saúde, humanitária e social que eu passei pela minha vida, e às portas da, mais que provável, maior crise económica que o Portugal democrático e a Europa pós Segunda Grande Guerra já enfrentou. Tem-se feito sentir um apelo aos portugueses para mudarem os seus hábitos a tantos níveis, e um deles é relacionado com o consumo. De vários sectores se passa a mensagem para se consumir produto nacional, seja passar férias cá dentro, alimentação, entre outros. 

Foi então do nada, claramente, apenas por genuíno espírito de bondade patriótica, que aparece uma nobre directora de uma grande superfície a publicitar… Peço desculpa, a comunicar que doam alimentos a hospitais neste momento de agradecimento aos seus profissionais (talvez porque antes não o merecessem, não sei, têm de lhe perguntar) e porque estão a apoiar os produtores nacionais, levando os seus produtos aos consumidores portugueses ao mais baixo preço. MEDO, MUITO MEDO! Estes lobos com pele de cordeiro, certamente que deixam o produtor precisamente só com a sua pele para conseguir estes baixos preços. Com carne de borrego a menos de 4€/Kg, eu nem consigo imaginar a quanto pagam os borregos aos produtores. E há por aí uns mal-intencionados que dirão que esta postura desta grande superfície é apenas para surfar a tal onda patriótica de consumo de produto português, e conseguir lucrar o mais possível com este momento, quiçá para pagar o tal fornecimento de alimentos aos hospitais de que tão oportunamente publicitaram. Isto há gente para tudo, realmente. Bandidos, pá! Criticam tudo e todos. Não sei, deve ser gente que tem o interior… do avesso! 

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João Simão, nascido a 30 de Outubro de 1981, Técnico de Gestão Agrícola desde 2001, finalista em Engenharia Zootécnica. Trabalhou em Agricultura e em Indústria no sector da Logística. Um amador profissional na música, fotografia, humor e carpintaria. Nasceu nas Caldas da Rainha, cresceu em Aveiro e desde 2016 mudou-se de armas e bagagens para Viseu onde reside, estuda e trabalha actualmente na Escola Superior Agrária de Viseu. Inconformado com injustiças sociais, com o que a Agricultura portuguesa podia ser e não é (uma das melhores do Planeta), um amante sério da Portugalidade e das suas gentes. Pai de um Viseense, que luta para que o mundo a que veio se torne qualquer coisa melhor quando o tiver de enfrentar, sempre com coragem, amor, solidariedade e frontalidade.

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