Foto de Antero Pires

Neste ano de 2020, celebra a Covilhã os 150 anos da sua elevação ao estatuto de Cidade. Uma boa oportunidade para nos perguntarmos, como covilhanenses, o que podemos esperar.

Eu diria que a celebração desse importante aniversário deveria servir para todos, autarcas e cidadãos, movimento associativo e empresas, nos envolvermos no debate cívico e político acerca dos rumos que pretendemos para o nosso futuro, sem descurarmos a inserção da Covilhã no Interior, com todos os seus problemas e estrangulamentos. Fazê-lo é um acto de maturidade e de reforço da própria Democracia. E inspiração no nosso passado histórico não nos falece, bastando lembrar o surto cívico e político de duas gerações de covilhanenses que marcaram com a sua acção a Covilhã: refiro-me à “geração” de 1870-1880, onde pontificaram, entre tantos outros, Manuel Nunes Giraldes e os filhos ilustres da família Campos Mello, que souberam, para lá dos legítimos interesses industriais de uma Covilhã que avançava no seu processo de industrialização e cujo «take off» se iniciara já na década de 1840, dar relevo a iniciativas no campo social como foi o caso da fundação da Real Associação da Infância Desvalida da Covilhã e da criação de associações mutualistas em prol das camadas mais desfavorecidas da Cidade, onde já se destacava um proletariado crescente. Lembrar ainda, já na década de 1880, o “Plano de Melhoramentos de 1883” que alterou profundamente a fisionomia e a estrutura urbana da cidade, sob a égide de Pedroso dos Santos.

A outra geração foi, sem dúvida, a de 1970, da qual seria exaustivo citar aqui os muitos nomes que dela fizeram parte. A esta “geração” muito deve a Covilhã dos nossos dias, a todos os níveis: desde os Planos Urbanísticos elaborados na Câmara da presidência desse enorme autarca que foi o engenheiro Vicente da Costa Borges Terenas, à criação do Instituto Politécnico da Covilhã que teria um desenvolvimento ímpar até chegar à actual Universidade, sem esquecer os Planos para o Regadio da Cova da Beira, e também para a Reconversão da Indústria de Lanifícios, várias vezes ensaiada e sempre falhada.

A cidade de hoje deve tudo a esses homens. E nunca será demais enaltecer e relevar a figura de Borges Terenas que, num contexto de um regime ditatorial, teve a lucidez e a coragem política de estabelecer pontes de diálogo e participação com individualidades que sabemos não serem propriamente afectos ao regime de então. Borges Terenas – um homem e um autarca que deveria ser exemplo para os actuais. A “geração” de 70 pensou, debateu, elaborou os Planos para quase tudo. Os autarcas desde o 25 de Abril mais não fizeram do que, aproveitando os fundos vindos da Comunidade Europeia, executá-los. E alguns desses fundos foram tão mal aproveitados!

Mas do ano de 2020 podemos e devemos esperar mais, muito mais mesmo. Logo à partida, devemos esperar um conjunto de medidas no campo económico e social que urgem e cuja responsabilidade é da Câmara Municipal. Uma dessas medidas terá de ser uma redução significativa da factura da água e dos serviços anexos. A Covilhã ocupa o «pódio» nacional nessa factura e os mais desfavorecidos e os mais pobres são as vítimas da insensibilidade social de quem governa o Município. Não há mês em que a factura da AdC não traga consigo um novo agravamento dos preços! Perito em demagogia, o senhor presidente da Câmara lá vai cumprindo coerentemente o seu programa: «para o ano é que vai ser!»…Entretanto, vai ignorando as dificuldades que muitas famílias sentem por vezes para liquidar as suas facturas.

Outra medida que urge tomar diz respeito à Taxa de Ocupação do Subsolo. Também aqui o senhor presidente é convidado a cumprir o que prometeu: que em 2020 haveria uma redução dessa taxa para os consumidores da rede de gás natural. E bons exemplos não lhe faltam: praticamente todos os Municípios de Portugal Continental colocam-se abaixo daquele lugar que a Covilhã ocupa com orgulho: o primeiro! Para não variar…

E para não variar, dizer também que a Covilhã cobra uma das mais elevadas taxas de cálculo do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI). Desde a última Câmara presidida pelo senhor Carlos Pinto o IMI já subiu duas vezes!

O filósofo Alemão Emmanuel Kant tinha formulado um conjunto de perguntas sistémicas que haveriam de estruturar todo o sistema do seu Pensamento Filosófico. Uma dessas perguntas era: “O que Podemos Esperar?”. Direi a terminar aos meus concidadãos da Covilhã que devemos ter Esperança. Mas, atenção, a Esperança dá muito trabalho!

Artigo publicado no Jornal Fórum Covilhã

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Nasce em Santa Maria da Feira em de Abril de 1940. Cumprido o Ensino Secundário Liceal, frequenta o Curso de Filosofia na Faculdade de Letras da Univ. do Porto. Depois de passar pela guerra colonial, regressa a Portugal já depois do 25 de Abril, ingressa no Ensino Oficial até à passagem à aposentação em Junho de 2007.
Radicado numa cidade do interior, a Covilhã, aqui empreendeu a investigação sobre a História do seu operariado dos Lanifícios, assim surgindo já dois livros : História do Movimento Operário da Covilhã ( I e II volumes) e ainda A Covilhã na 1.ª Grande Guerra ( 1914-1918 ) em coautoria.
Actualmente, desenvolve a sua actividade, além da investigação, pelo movimento associativo, voluntariado e colaborador na imprensa local.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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