Foto por Sergio Calleja

No virar do século e do milénio Fernando Ruas, então Presidente da Câmara Municipal de Viseu ambicionava trazer para a Avenida da Europa – na altura ainda recém inaugurada – mais dez mil habitantes. Já nesse tempo ninguém sabia bem de onde viriam tantas pessoas já que em anos sucessivos a taxa de natalidade em Portugal vinha caindo sem remissão. Mais adiante, num outro delírio incompreensível, o mesmo autarca e na altura também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses chegou a falar também na criação de uma Área Metropolitana de Viseu.
Uma das coisas de que então alguns viseenses se vangloriavam era o facto de Viseu ser das poucas – senão mesmo a única – cidade do interior que não perdia população. Havia mesmo um pequeno acréscimo de habitantes, se bem me recordo.

Nada que justificasse euforias, evidentemente, até porque, como já se notava, a cidade de Viseu começara a canibalizar o concelho e o próprio distrito. Os novos habitantes vinham das redondezas e esse crescimento residual tinha portanto os dias contados já que nem o concelho nem o distrito eram propriamente alfobres de pessoas.

Não era preciso ser profeta para se prever que a depressão demográfica haveria também de atingir a capital de distrito já que nada fazia antecipar uma inversão da tendência decrescente das taxas de natalidade.
Uma crise financeira depois, a de 2008 , terá talvez antecipado esse momento, produzindo mais uma vaga de emigração que de resto se estendeu ao resto do país mas – sejamos objetivos – esse tempo chegaria sempre e não seria preciso esperar muito.

Assim chegámos a este ponto e é neste contexto que se coloca agora a possibilidade real dos distritos de Viseu e da Guarda – perderem um deputado, passando o primeiro de 9 para 8 e o segundo de 4 para 3.

O cinismo de alguns há-de considerar que não faz falta mais um representante no Parlamento, escamoteando o facto de tal reflectir uma perda populacional objectiva e – vem tudo no mesmo pacote – uma real perda de influência da região no contexto nacional com consequências palpáveis quer na distribuição de verbas, quer na atracção que cidade e distrito possam exercer sobre possíveis investidores.
Diz-se que as pessoas menos dotadas só alcançam aquilo que vêem mas num caso como este era preciso que os nossos autarcas nem aquilo que viam logravam alcançar para não poderem prever algo tão evidente. Não creio portanto que tenha sido por falta de compreensão que os poderes locais permitiram que aqui chegássemos. O que nos deixa apenas diante de uma possibilidade de explicação: eles sempre souberam mas escamotearam o que o cidadão comum já pressentia. O que diz muito das suas prestações autárquicas já que por natureza a acção política exige a capacidade de prever e prevenir revezes que se reflitam na vida dos cidadãos.

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Nascido em Angola em 10-09-1963. Cursou Arquitectura na ESBAP e na FAUTL. Professor do 3ºCiclo. Activista, Poeta, Ficcionista, Autor Satírico (sob o nome Jo King), Cartoonista (sob o nome Jo) vive actualmente em Viseu.

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