A saída do armário nunca é, nem foi um processo fácil.

O movimento LGBTI+ contemporâneo é o resultado de lutas durante décadas para a conquista de direitos civis, sociais e também económicos. 

Alguém que em 1969 nos Estados Unidos da América tivesse assistido à Rebelião de Stonewall, não imaginaria a demonstração de força que o movimento LGBTI+ adquiriu nas sociedades ocidentais.  

O movimento LGBTI+ soube ter a lucidez de apresentar uma agenda justa e enquadrada numa interseccionalidade dos direitos de todas as minorias, lutando contra todo o tipo de opressão e discriminação. 

O movimento inicialmente muito centrado na luta homossexual, (na demonstração de identidade homogénea e de respeito para com os homossexuais), evoluiu rapidamente para uma sistematização de atuação no âmbito social, político e cultural.  

O movimento integrou as reivindicações abrangentes dos direitos civis das comunidades negras americanas e na exigência de respeito pela diversidade racial, religiosa, e também sexual.

Foi assim possível estabelecer um movimento social e cultural, mas também político, que incorporou todas as minorias sexuais e manifestou à sociedade a sua visibilidade e poder reivindicativo.

Apesar da notável e recente evolução, existem motivos de preocupação, os direitos civis e sociais obtidos podem ser revertidos, por isso a luta LGBTI+ não terminou, é um processo permanente de afirmação e de resiliência.

Assistimos ao surgimento de movimentos racistas, populistas e fascistas, com uma agenda marcadamente conservadora, e que visam derrubar todas as conquistas sociais que as minorias têm obtido, não só no âmbito da diversidade sexual, mas também no que diz respeito ao feminismo ao racismo e às desigualdades socioeconómicas. 

Estes movimentos crescem rapidamente porque agregam todas as frustrações sociais resultantes do sistema capitalista. O discurso populista e demagógico pode ser o canto de sereia para muitos excluídos e descontentes da sociedade, onde o lucro e os proveitos financeiros destroem a justiça social e esperança.

Também o movimento LGBTI+ deverá ter uma palavra nesta luta dupla: a manutenção dos direitos civis e sociais por um lado, e por outro, o combate político a estes movimentos fascistas cuja agenda visa destruir a diversidade social, racial e sexual, com base no princípio da superioridade da raça branca, da família tradicional e dos valores eminentemente religiosos como regra única de organização da sociedade.

Assistimos hoje a um novo tipo de discriminação a que apelido de “segregação informal”, ou seja, aquela que não é evidente nem manifesta.  

Este tipo de discriminação é muito mais perigosa e destrutiva da personalidade e integração social dos indivíduos. Geralmente esta discriminação subterrânea manifesta-se de forma insidiosa, sem que existam provas sustentáveis da prática do crime. Destaco os seguintes exemplos:  exclusão no grupo de amigos, ostracização na escola, pressão laborar que muitas vezes conduzem à demissão, no acesso ao emprego…

Nas regiões do interior, esta realidade assume uma relevância particular, uma vez que as redes sociais são mais limitadas, a identificação pessoal com os diversos grupos (amigos, trabalho, família) é mais forte, e ocorre por esse fato uma maior dificuldade de reintegração para aqueles que publicamente assumem a sua diversidade sexual.

Não se trata apenas de maior conservadorismo ou falta de cosmopolitismo, mas também, a “solidão” que se verifica na hora de tomada de decisão de assumir a diversidade sexual.

As principais organizações de defesa e apoio LGBTI+ estão essencialmente concentradas nos grandes centros urbanos, mesmo em cidades do interior onde existe ensino superior e uma maior mobilidade geográfica e interpenetração cultural, a inexistência de redes de aconselhamento   psicossocial de apoio após a “saída do armário”, dificultam o já difícil processo individual de aceitação e integração.

Saúda-se, contudo, as manifestações pontuais que ocorreram nos últimos anos em cidades do interior, marchas e outras iniciativas que promovem a visibilidade da diversidade sexual, e certamente encorajam muitos à tomada da decisão mais difícil da sua vida, não raras vezes com consequências dramáticas nos seus diversos círculos social e familiar. Estas iniciativas no interior têm de ser aprofundadas e generalizadas, como forma de consciencialização e visibilidade LGBTI+.

Sair do armário? Sim é um processo difícil, mas a autenticidade do ser humano as lutas contra a opressão valem todas as dificuldades que a sociedade nos coloca.

Que este mês do orgulho LGBTI+ seja um mês de reivindicação e de luta, inspirados na coragem daqueles e daquelas que pagaram com a vida a possibilidade que hoje temos de manifestar o nosso orgulho.

44 anos. Militante do Bloco de Esquerda no Núcleo da Covilhã. Ativista LGBTI+ e antifascista.
Frequentou a licenciatura em Gestão e Administração Pública com especialização em Administração Autárquica pela Universidade Técnica de Lisboa. Presentemente encontra-se desempregado.
Desde jovem que está envolvido nos movimentos políticos e sociais, sendo eleito em dois mandatos para a Assembleia Municipal da Covilhã.
Teve uma forte ligação ao movimento social tendo feito parte dos órgãos Sociais do Centro Social de Cantar Galo na Covilhã e da Associação Mutualista Covilhanense.

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