Trabalhadores de todo o mundo: organizem-se!

Das muitas coisas que unem os extremos da direita, isto é, e no caso português, a Iniciativa Liberal e o Chega, é a crença inabalável no milagre dos multiplicadores.
Fotograma do filme "Tempos Modernos" (1936), de Charles Chaplin
Fotograma do filme “Tempos Modernos” (1936), de Charles Chaplin

No que respeita à economia para os extremos da direita a receita é só uma: cortar nas despesas do Estado (onde tudo se confunde e se mescla sob o nebuloso nome de “gorduras”) e nas fontes de receita em prol da fé inabalável de que uma economia liberta das “amarras do Estado” compensará qualquer arrombo nos cofres do mesmo. É cortar e depois, olhe-se, o mercado, se Deus (com a sua “mão invisível) quiser, prontamente tratará de reequilibrar tudo consoante a divina providência do sacrossanto mercado, essa outra Jerusalém, o paraíso na Terra. Os extremos da direita, fascistas e liberais, afirmam o dogma da transcendentalidade dos princípios do “livre mercado” quando este depende essencialmente de fatores empíricos.

Múltiplos, variáveis e imprevisíveis são os fatores externos que podem condicionar uma economia assente nos princípios da livre troca comercial; tantos que o Estado, num modelo de economia mista, atua justamente no sentido de mitigar “externalidades negativas” e intervir sobre os ciclos económicos. Aparentemente os extremos da direita, e em coerência com a sua visão sobre o funcionamento da economia, postulam (ou deviam postular) a igualdade entre todos os agentes económicos consoante a promoção ativa (institucionalizada) da concorrência feroz entre os mesmos. Mas não é o que acontece na “economia real” e a recusa de se mexer no valor sagrado da propriedade privada apenas corrobora e provoca essa mesma realidade. A ideia de que são os empresários, com o seu espírito empreendedor, que quais timoneiros fazem mexer a economia é uma consequência da sua mundivisão profundamente classista da economia. Visão esta que até partilham com os marxistas como nós apenas que defendendo não a classe trabalhadora (como nós defendemos) mas a burguesia, o patronato. Por isso a luta contra os extremos da direita é sim também a luta por uma economia organizada a partir da autonomia da classe trabalhadora contra não só a exploração capitalista como até, por consequência, a sua própria improdutividade, a sua incapacidade de dar uma resposta para a economia que conduza à prosperidade não dos mais ricos mas de todos. É a classe trabalhadora que faz a economia e não o parasitismo burguês do trabalho alheio. É a classe trabalhadora, em coletivo, que a todo o momento, ao nível micro do seu local de trabalho e até da sua “economia doméstica” ou reprodutiva, soluciona os problemas mais prementes da sociedade (a partir da permanente resposta criativa aos problemas mais “infra”, concretos e localizados) e não a classe dos exploradores. Trabalhadores de todo o mundo: organizem-se!

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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