“Bem-vindo à nova marca de Castelo Branco” – “Bordar e receber”. Assim rezam os placares que prolongam nas ruas o que foi anunciado como “a” marca identitária da cidade – ou, baixando o teto, “a maior”.

“Bordar e receber” é uma boa frase. Tem artifícios de marquetinguista e até esvoaça com asas de poesia. Mas, terá mais? Será mais do que flor de retórica que seca com o passar? Será que ilustrará e potenciará o que a cidade fez e quer fazer? Castelo Branco irá mesmo bordar e, acontecendo, irá fazer de bordar uma indústria e uma indústria cultural com atratividade? Para aumentar o “receber” desta equação tem que bordar muitíssimo mais e, antes disso, tem que investigar para conhecer e difundir a história e a cultura do seu bordar. Por agora, conhece pouco e tem equívocos por deslaçar. Os Bordados de Castelo Branco não tiveram (e, muito menos têm na atualidade) produção para corresponder a uma hipotética procura que possa sustentar a sua eleição como “a” (ou “a maior”) marca referencial da cidade.

As cidades afirmam-se com os tecidos histórico-culturais e económicos que as singularizam. A Câmara Municipal elegeu os Bordados e julgo que é uma decisão gravemente redutora. Castelo Branco não tem monumentalidade, figura e atividade de relevo com potencial de atratividade que permita eleger alguma por si própria. A cidade pode impor-se pela diversidade de registos histórico-culturais que possui. Conjuga os períodos pré-histórico e da ocupação romana com as expressões, em nacionalidade portuguesa, do povoamento sob direção templária. Tem registos da expansão dinisina até amuralhar o sopé do monte e da abundante expressão quinhentista, dentro e fora da vila-fortaleza. Tem sinais (ainda mal estudados e interpretados) de individualidade judaica. Tem o Paço do Bispo e o seu Jardim (Monumento Nacional), o cruzeiro de S. João (também), entre outros sinais do seu histórico caminhar. Por exemplo: a ermida da Senhora de Mércules, o monte de São Martinho e o Barrocal que, em vez de Parque Natural da rede da UNESCO, está a ser transformado em parque urbano. E temos o património imaterial: João Roiz, Amato Lusitano e outras figuras com protagonismo histórico e cultural, como Afonso de Paiva, Faria de Vasconcelos, Francisco Tavares Proença Júnior, Vieira de Almeida, Jaime Lopes Dias. E criadores como António Salvado, José Manuel Castanheira, Manuel Cargaleiro – Museu Cargaleiro, tão paralisado e com tantas obras que não trata, não mostra, nem põe a circular pelo país!

Os Bordados são uma das várias qualificações da cidade, cada uma com as suas caraterísticas e valores intrínsecos que devem ser conjugados num todo. E já nem falo de novas matérias de afirmação que, em tempos, não foram aceites: as conferências internacionais periódicas, inspiradas em Amato Lusitano, sobre o estado da arte em especialidades da Medicina; o projeto-piloto de estudo e monitorização dos impactos dos extremos do calor e do frio; a afirmação da cidade como cidade de cultura da poesia e da música – esta, baseada na qualidade das suas escolas especializadas.

Tudo isto para defender uma opção que integre articuladamente todas as valências com um discurso e intervenções que as afirmem. Uma opção por uma estratégia que dê realidade e coerência ao que a cidade foi, é e quer para se desenvolver, através das suas singularidades.

É – só – “Bordar e receber”? Acho que temos de bordar nos muitos tecidos que a cidade tem. Não apenas num. Para poder receber.

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Nasce em Castelo Branco em 1944. Em 1961 vai estudar Físico-Químicas para a Universidade de Coimbra onde com a crise e a repressão académicas nasce a sua consciência política. No ano de 1969 integra os quadros do Serviço Meteorológico Nacional. Mobilizado para a Guiné Bissau, consegue no entanto ser destacado para Timor-Leste, onde permanece entre 1973 e 1974 a chefiar o Serviço Meteorolóqico.
Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002 para tentar desenvolver um projeto-piloto de regionalização de atividades meteorológicas.
É autor dos livros “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (1996), “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (2000) e dos livros de poesia "Corpo Aberto" (2016) e "De muitos ventos e utopia" (2018).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002.
É autor dos livros “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (Imagem do Corpo)” (2000), e da antologia “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (2002).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.

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