Foto por Lina Sousa

Este texto é dedicado aos Santacombadenses que se revêm nas fotografias do meu avô Ribeiro da Foto Ribeiro, como uma parte da sua história. Já há décadas que queremos valorizar este património. Deixo aqui em baixo uma transcrição daquela que foi a minha intervenção na Reunião ordinária da Câmara Municipal de Santa Comba Dão no final de Janeiro de 2021 num processo conturbado que continuamos a querer que seja construtivo.

Santa Comba Dão,
29 de Janeiro de 2021,

Boa tarde Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal, exmos. Vereadores, julgo que haverá pelo menos um secretário nesta sala, dirijo-lhe também boa tarde, tal como a todos os munícipes e cidadãos aqui presentes ou que leem este discurso em papel ou no seu ecrã.

O meu nome é João cão, aqui em Santa Comba Dão conhecido como André Ribeiro, sou neto e representante do Fotógrafo da terra Carlos Ribeiro. O meu avô foi aqui fotógrafo desde 1954 e participou na maioria dos eventos que marcou a terra. Com certeza que temos pessoas na sala que também entraram no estúdio de fotografia na Rua Alexandre Herculano.
Lembram-se desses momentos? Essas fotografias devem ter ficado nas suas carteiras, documentos de identificação, porventura nas vossas paredes de casa. De quem são essas fotografias? Talvez achem estranha esta pergunta. Com certeza que essas fotos são suas!
Mas também foram dirigidas, compostas e entregues por um autor, o meu avô.
Hoje, o espólio do meu avô é aqui discutido. Com certeza que esse espólio é legalmente dele, apesar de estar na posse desta Câmara Municipal devido a um contrato caducado no final de 2017. Neste momento este património é dele, do Carlos Ribeiro, mas está indevidamente na posse da Câmara Municipal. Mas eu não venho aqui para entrar em litígio. Passo a explicar.

Não sinto que as fotos da vivência de Santa Comba Dão pertençam ao meu avô, nem às nossas carteiras, paredes ou cartões de cidadão. Para os Santacombadenses do futuro, o autor morreu e estas imagens fazem parte do presente. Nós procuramos nas imagens do passado sentido ao nosso presente. Então este arquivo pertence a quem afinal? Se reconhecemos esse valor histórico e de identidade será à comunidade de Santa Comba Dão.
Se pensarmos na nossa curiosidade como olhamos para o Mundo, também o Mundo quer olhar para nós, será então propriedade da Humanidade. A própria História é feita por historiadores, mas pertence a todos. Mas há maneiras diferentes de fazer História, como há maneiras diferentes de fazer fotografia. Já imaginaram se tivessem existido em 1950 aqui em Santa Comba Dão não só o meu avô fotógrafo, mas todos os nossos avós fotógrafos? Com certeza concordarão que esse espólio imaginário seria muito mais rico do que aquele que temos hoje do meu avô. Hoje somos todos fotógrafos, mesmo que amadores.
Da mesma maneira, a política aqui mudou desde 1950. A decisão política não pertence a um ditador, mas ao povo. Mesmo as decisões de uma Assembleia Municipal não são o interesse público dos seus munícipes por inteiro.

O interesse público define-se não só pelas decisões e acções dos órgãos representativos, mas também pelas acções de outros colectivos, como associações do terceiro sector e indivíduos que agem pelo bem comum.
É em nome do interesse público que peço acesso aos negativos do meu avô agora em posse legalmente indevida da Câmara Municipal. Eu e a minha família estamos dispostos a fazer um novo acordo. Este material presentemente não tem permissão legal de reprodução ou utilização para qualquer acção.

 

Artigo por André Ribeiro (João Cão) publicado em Dog Days (Tumblr)

 

Santa Comba Dão: Município deixa caducar protocolo do espólio do Foto Ribeiro

Deixe o seu comentário

Skip to content