Foto por Cine Clube de Viseu | Facebook

Sem o financiamento municipal, o Cinema na Cidade terá outro formato este ano. Mas mesmo em pandemia e com falta de apoios, o Cine Clube de Viseu não parou. As sessões com público regressam no dia 22 de abril com o filme “Prazer, camaradas”.

“Infelizmente, o que constatamos é que não se encaram estes espaços alternativos como muito importantes, porque não há medidas concretas. Nunca fomos contactados por ninguém a perguntar se precisávamos de apoio para álcool gel ou para vinil, ou para ajustar [alguma coisa]. Não somos uma preocupação do Ministério [da Cultura] ou de outras esferas”, lamenta Rodrigo Francisco, da direção do Cine Clube de Viseu, em entrevista à TSF. “Continuamos a ser o parente pobre da política de apoio ao cinema em Portugal”.

Os dois confinamentos impuseram duas prolongadas pausas na exibição de filmes. Só amanhã, 19 de abril, é que as sessões públicas serão retomadas, havendo incerteza quanto ao futuro de salas independentes e até de auditórios municipais. “Se não protegermos estes espaços, que defendem o cinema português, europeu, lusófono, de novos autores, estamos a deixar uma franja importante de público sem um cinema que é e sempre foi muito importante”, defende Rodrigo à TSF.

Apesar da pandemia, as atividades não param

Com as sessões com o público suspensas desde janeiro, o Cine Clube não parou e reinventou formas de promover a sétima arte, continuando a desenvolver o seu trabalho educativo e social.

Rodrigo Francisco deu exemplos à TSF. “Fizemos chegar filmes que os responsáveis das IPSS projetaram e recebemos feedback como desenhos, fotografias desses grupos, com distanciamento, a assistir a filmes que nós programamos com algum cuidado”.

“Não sentimos que é só trabalho, é a necessidade de sermos um aliado da comunidade numa altura tão difícil para as pessoas sobretudo para as mais vulneráveis. Quisemos adaptar o trabalho às necessidades da comunidade com quem já trabalhávamos. Achamos que o papel de uma associação não é desaparecer nesta altura, é também acompanhar as pessoas”, sublinhou.

Também o projeto educativo Cinema para as escolas, iniciado em 1999, está agora praticamente parado e teve que ser repensado: a aposta recaiu no meio digital. Foram partilhados nas redes sociais tutoriais, que ensinam a fazer cinema. Este mês o projeto estará numa escola de Cinfães, mas o regresso em força só deve acontecer no próximo ano letivo.

As exibições em sala promovidas pelo Cine Clube regressam no dia 22 de abril, com a antestreia do filme “Prazer, camaradas”, de José Filipe Costa. “Quisemos o regresso, em abril, com um filme de um realizador português próximo do Cine Clube, o filme é uma reconstituição ficcionada de alguns casos. Vai estrear em maio em sala e antes de estar disponível em mais cidades faz um périplo por alguns Cine Clubes, que são dos espaços onde é possível encontrar um público mais interessado em cinema português”, frisou.

Estão ainda neste momento abertas as inscrições para os Prémios do festival vistacurta. A edição de 2021 do festival organizado pelo Cine Clube de Viseu decorrerá de 12 a 16 de Outubro. “Este trabalho deste cinema mais alternativo junto do público é tão constante e necessita tanto de consistência, que uma quebra longa pode ser algo que tenha consequências sérias, por isso o Vista Curta quer continuar. Tem neste momento a call a funcionar, está a receber trabalhos, recebemos dezenas de curtas-metragens por semana”, avançou à TSF.

Já o Cinema na Cidade não irá acontecer este ano no formato original, devido à perda do financiamento municipal, segundo adianta o Jornal do Centro (JC). “É uma atividade que exige um esforço financeiro grande, mas não o podemos fazer este ano porque não existe financiamento. Vamos ter de ajustar para um figurino diferente, ou seja, haverá na mesma a tradição do cinema ao ar livre porque tem de haver e já existe desde 1982”, afirmou Rodrigo ao JC.

Um dos mais antigos Cine Clubes de Portugal

O Cine Clube de Viseu foi fundado há 65 anos. Atualmente está sediado no centro histórico de Viseu, no número 62 da Rua Escura. Segundo a descrição do artigo da TSF, “o espaço de trabalho é também uma espécie de museu. No chão e nas paredes vemos cartazes de filmes, o Cine Clube tem mais de 1200 em arquivo, películas, bobines, há até duas máquinas de projetar em 16 mm”.

A primeira projeção que fez foi a 16 de dezembro de 1955 no extinto Cine Rossio, do “Passaporte para o paraíso”. Desde então, em média, por ano, a associação exibe 30 a 60 filmes. Conta com cerca de 2 mil sócios, mas só uns 250 pagaram as quotas nos últimos 18 meses.

Sem sala própria, o Cine Clube de Viseu recorre ao auditório do Instituto Português da Juventude da cidade. Em média por sessão, mesmo durante a pandemia, estão sempre cerca de meia centena de pessoas na assistência.

“São muito diferentes entre si porque têm uma resposta local, cada local tem um contexto diferente. Às vezes é preciso trabalhar com certas comunidades, outras vezes com escolas, outras vezes, como o caso de Viseu, ter uma das raras revistas de cinema em Portugal, o Argumento. Torna-se multifacetado o perfil do Cine Clube e isso é ótimo. Uma das coisas mais importantes é a dispersão geográfica. Os Cine Clubes têm garantido acesso até a comunidades do interior muito antes de movimentos pelo interior desta vida”, referiu o dirigente à TSF.

Os 30 Cine Clubes existentes no país têm esta particularidade de se adaptarem e promoverem atividades tendo em conta o território em que se insere, apesar de prosseguirem os mesmo fins: divulgar o cinema de autor.

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