“Não há bailes no interior?”: as reflexões, opiniões e experiências de Artur Mendes, membro da organização do Boom Festival

Não se podendo “bailar” no interior este ano, quais os principais desafios para o setor cultural, quais as alternativas encontradas, quais as expectativas para o futuro e quais as medidas necessárias para que a cultura nunca pare? Estas foram as questões que motivaram o Encontro do Avesso “Não há bailes no interior?”, com a presença online de Artur Mendes (Boom Festival), Leonor Afonso (Quintanilha Rock) e Mário Correia (Festival Intercéltico de Sendim).

Segundo Artur Mendes, “estamos num país onde já ficou demonstrado que cerca de entre 3,5 a 4 por cento do PIB é o setor Cultural e Criativo. No entanto o Ministério da Cultura nem um porcento tem do orçamento geral do estado.” Além do mais há ainda locais do país em que se faz “cultura onde o Estado não está”, permitindo “que cidadãos do nosso país consigam tocar instrumentos,ter acesso à informação, consigam ter uma educação que muitas vezes o nosso sistema de ensino não permite”. Assim, é da opinião que “devia haver uma discriminação positiva em relação a quem faz cultura em regiões de baixa densidade”.

Na sua opinião, é também comum que muitas vezes, em locais de baixa densidade, exista “uma luta por recursos e esta luta por recursos, que é natural porque somos um país com poucos recursos e muitas vezes quem tem recursos são as autarquias, e obviamente que as autarquias muitas vezes não têm recursos para todos”, o que faz com que “nem sempre o tecido cultural está unido e nem sempre existe uma uma coerência em relação à forma como os apoios são dados”.

No contexto de crise do covid-19 e na forma como está a afetar o setor cultural, Artur lembra que “a cultura é muito como o desporto, é um trabalho de equipa absolutamente interdependente” e dá o exemplo de como em Idanha-a-Nova, onde se realizaria o Boom Festival, “há dezenas, centenas quase até, de empresas que com o facto do festival não se realizar têm um decréscimo bastante na sua facturação”.

Quando questionado sobre que medidas poderiam fazer a diferença, propõe que “aquilo que deveria acontecer era que os milhares e milhares de euros qualquer promotor paga SPA deveriam ir diretamente para um fundo que seria quase com uma Caixa de Providência para o profissional do espetáculo intermitente”. Reforça ainda a ideia de um reforço positivo de quem faz cultura nos territórios de baixa densidade ou no interior: “se existisse uma discriminação positiva o nível de IRC, obviamente demonstrado que as verbas seriam não para irem para dividendos dos sócios, mas para irem para apoiar a criação de emprego e a criação da educação artística. Uma discriminação de IRC, uma discriminação a nível daquilo que são os custos com combustível, uma discriminação a nível daquilo que são rendas, uma discriminação daquilo que é eletricidade, tudo aquilo que existe, tudo aquilo que é necessário uma organização pagar quando ela está a substituir-se ao Estado, acho que o Estado deve dar atenção a essas organizações em territórios como o interior”.

“Uma vez que não bailamos acho que devemos refletir e devemos manter-nos muitíssimo informados, muitíssimo bem nutridos, que é daquelas coisas que também no interior se pode fazer uma forma bastante sadia, que é não apenas nutrimo-nos fisicamente, mas também espiritualmente, naturalmente”

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