Caríssimo “Normal”,

Quando se está vivo, espera-se no mínimo que se viva.
Jean-Paul Sartre escreveu que o Homem é antes de tudo livre e que essa liberdade ou era absoluta ou não existia. Falou ainda da falsificação da liberdade, postulando que esta residia precisamente na invenção dos determinismos de toda espécie, que põem no lugar do nada o ser. Toda a sua teoria sobre o Homem e a liberdade é extensa mas este excerto é suficiente e importante para aquilo que lhe quero dizer hoje.

Socorri-me do existencialista francês porque, como adivinhará, concordo em toda a linha com o que defendeu. E defendo-o também, com linguagem menos preparada é certo, mas com mais paixão se me for perdoada a ousadia.

De facto, é para mim, da mais profunda evidência que para se Ser (Homem) é preciso Ser-se livre.

Mas caro “normal”, não esquecer que essa liberdade quando não existe é por restrições e entraves que o próprio Homem inventa.

Por isso tanto se fala de liberdade, todos a defendem e todos a querem. Se tivesse preço era vendida com IVA a 6%. Ser livre é votar em quem se deseja, denunciar tudo o que está mal, tudo o que é incorrecto ou tudo o que é injusto; é gritar pelo clube do coração, é usar tatuagens, piercings e não ser despedido; é poder gerir as economias a seu prazer. Isto seria dito e defendido pela maioria das pessoas “normais” como você mesmo. Mas como “normais” que são, esquecem-se de que a liberdade é muito maior do que isso. Aliás, é isso mas é sobretudo outras coisas. A liberdade está em todo o lado.

Ser livre é poder trabalhar, ser livre é poder constituir família, ser livre é poder tomar café e conviver quando apetecer, ser livre é sair e voltar só quando todos voltam, ser livre é escolher como passar os tempos livres, ser livre é poder projectar a vida, ser livre é poder odiar e amar quem aprouver, ser livre é tão simples como dormir à hora que se quer.

Eu sei disto porque não sou “normal” e para piorar as coisas sou Homem. E assim, preciso do que todos precisam para viver e ser feliz. Aqui está a liberdade de Sartre. Quando se está vivo, espera-se no mínimo que se viva, como lhe dizia no início. Então permita-me ser livre e pare com todos os entraves que me tem colocado. Aqui, Sartre outra vez, com os determinismos que o Homem inventa. Quebre-me as correntes e surpreenda-se.

Caro “normal” imagine que tudo o que amava estava lá no alto e que a única forma de chegar a elas era ter asas. Ao quebrar as minhas correntes está-me a dar essas asas.

Deixe-me dizer-lhe ainda que lutarei para Viver com a dignidade e liberdade com que você vive. Tenho-o em boa conta, mas você não é mais que eu.

Eu e Vossa Excelência : quando estamos felizes, sorrimos; quando estamos tristes, choramos, quando a comida é boa, repetimos; quando é má, fazemos blac; quando passa alguém perfumado, ficamos com calores, quando temos calor, suamos; quando temos frio, trememos; quando gostamos, abraçamos; quando amamos, lutamos. Pois se somos iguais nisto tudo, vamos ser iguais na liberdade de viver também!

A Vida Independente é um direito e uma necessidade premente que o nosso país tem de parar de ignorar. Todas as pessoas devem interessar a um país. Que todos possam viver o seu país e a sua vida. Eu quero o meu país, eu quero a minha vida.
Eu não ando, mas preciso que a minha vida ande.

Grato pela atenção,
Rui Machado

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O CVI - Centro de Vida Independente, é uma Associação sem fins lucrativos, formalizada em 2015, mas com atividade desde 2014. Tem por missão promover a qualidade de vida das pessoas com diversidade funcional, intelectual e sensorial (deficiência), a nível social e económico, dando a conhecer e ajudando a implementar, na prática, o conceito de Vida Independente. O CVI Norte consubstancia estes mesmos ideais e valores, unindo as Delegações de Vila Real e do Porto.

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