Foto por Anna Jones

André, chamamos-lhe assim, há anos que tinha um grande sonho – ter a sua vida independente. Nunca a tivera antes, devido aos seus condicionalismos físicos e quase total dependência de terceiros para realizar todas e quaisquer tarefas no seu dia-a-dia, por mais simples que fossem. Quando se é dependente de alguém, por muito que o carinho e responsabilidades sobressaiam, está-se sempre sujeito a tiques de ditaduras que retiram a possibilidade de viver uma vida plena de decisões próprias, o que leva, muitas vezes, as pessoas com deficiências mais acentuadas a duvidarem se a sua própria existência faz algum sentido.

Depressão, solidão, apatia são sentimentos reais de quem vê o tempo a passar devagar, inimigo, vazio de algo novo que coloque um sorriso no rosto, perdido mentalmente há muitos anos.

Dias quase sempre iguais.
Portugal passava por uma profunda mudança de paradigma no que diz respeito à vida das pessoas com diversidade funcional. A Vida Independente era agora um direito constitucional de todos os cidadãos portugueses, existindo um programa exaustivo que assegurava a rápida intervenção no terreno para qualquer pessoa que se encontrasse limitada da sua liberdade e consequente escassez de felicidade. Dizia a lei: Ninguém é feliz sem liberdade! O povo tornou-se ciente dessa constatação elementar e juntou-se a uma luta que já não o era. Estava ganha.
A cuidadora de André meteu a chave na fechadura da casa nova pela primeira vez.

O sentimento era idêntico a de um recluso inocente que sempre esteve preso sem qualquer culpa associada.

Com a porta ainda entreaberta, o novo dono daquela habitação toda adaptada e acessível verteu lágrimas genuínas que evidenciavam e festejavam o princípio de um mundo novo. Utopia tornada realidade para um homem que daria dez anos da sua vida para estar a viver aquele momento de uma conquista que já não acreditava ser possível alcançar num país com mentalidades próximas das de terceiro mundo. André, pela primeira vez desde que se conhecia como cidadão europeu, estava orgulhoso por ser português. Passados cinco décadas, a data de 25 de abril de 1974 ganhara ainda mais dimensão.

Ele, o André, podia agora ir para a cozinha decidir o que ia jantar nessa noite… e nas restantes!

Podia escolher onde iria no dia seguinte e com quem. A roupa que ia vestir, o perfume que ia comprar, o chocolate que ia saborear naquele momento específico do dia ou da noite. A cerveja que sempre quis beber sozinho a olhar para o mar. Uma imensidão de novas sensações, sentimentos e vivências esperavam por ele, como ele esperou tanto por tudo aquilo que agora tinha à sua mercê e que lhe foi negado a vida toda, inconscientemente por quem sempre cuidou dele e que merece gratidão eterna da sua parte. Esses familiares, auxiliares e amigos sempre farão parte dos ilustres da vida de André.
O respeito recíproco pela pessoa cuidadora era agora uma responsabilidade, da qual, André não iria abdicar. Era uma profissional que cuidava de si, mas, com o passar do tempo e com o viver de tantas gargalhadas e aventuras juntos, quem sabe não poderiam tornar-se grandes amigos. A amizade, a cedência, o afeto, o respeito, a compreensão, a companhia, os olhares e os sorrisos gratos, os silêncios saudáveis e os ruídos de alegrias espontâneas, eram fatores primordiais para André, que não se via como um patrão, mas sim, como a pessoa que ia ser cuidada com a maior das forças e dedicação de um outro ser humano.
A viagem de sonho era agora a próxima etapa de uma nova Vida Independente.

(Escrito por Manuel Francisco Costa)

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O CVI - Centro de Vida Independente, é uma Associação sem fins lucrativos, formalizada em 2015, mas com atividade desde 2014. Tem por missão promover a qualidade de vida das pessoas com diversidade funcional, intelectual e sensorial (deficiência), a nível social e económico, dando a conhecer e ajudando a implementar, na prática, o conceito de Vida Independente. O CVI Norte consubstancia estes mesmos ideais e valores, unindo as Delegações de Vila Real e do Porto.

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