Foto retirada de esquerda.net

A 2 de abril de 1976, o Padre Max e Maria de Lurdes foram assassinados, vítimas de um atentado bombista. O Interior do Avesso entrevistou Luís Fazenda, antigo secretário-geral da UDP, fundador do Bloco de Esquerda e impulsionador de uma carta tributo à memória de Max e Lurdes com mais de 300 subscritores.

 

Passaram 45 anos do assassinato do Padre Max e Lurdes. O que aconteceu a 2 de abril de 1976?

O padre Maximino Barbosa de Sousa e a estudante Maria de Lurdes Correia foram assassinados num atentado bombista. A bomba foi escondida no interior do automóvel onde Max e Lurdes se deslocavam e acionada por relógio. Max e Lurdes tinham,nessa noite, terminado aulas grátis de alfabetização de adultos na Casa do Povo da Cumieira, perto de Vila Real, onde residiam.Também nesse dia foi promulgada a Constituição da República, ainda hoje em vigor, apesar de revista.

Quem era o Padre Max?

Era filho de emigrantes em França, natural de Ribeira de Pena, distrito de Vila Real. Estudou em Portugal e em França. Participou no Maio de 68, em Paris. Lecionou em vários Liceus e no Magistério Primário, em Vila Real. Era um cristão pelo socialismo, e um ativista, mesmo antes do 25 de Abril. Esteve ligado a lutas de assalariados rurais do Douro, dos rodoviários da Auto-Viação do Tâmega, dos supermercados em Vila Real, e dos estudantes. Vibrou com a Liberdade e queria que ela chegasse a Trás-os-Montes. Quando foi morto era candidato a deputado pela União Democrática Popular nas primeiras eleições para a Assembleia da República e tinha 33 anos.

Quem era Lurdes?

A Maria de Lurdes Correia era estudante em Vila Real, filha de emigrantes em França. Vivia com uma avó, Ana Ribeiro, que nunca desistiu em vida de que fossem punidos os assassinos. Apesar de todas as campanhas de intimidação da direita reacionária para a demover. A Lurdes era militante da UEDP, União de Estudantes pela Democracia Popular e tinha 19 anos quando foi morta.

Quais foram as consequências destes homicídios?

Estes homicídios provocaram uma comoção nacional e a solidariedade de todos os partidos de Esquerda, dos militares de Abril no tempo do Conselho da Revolução, do Presidente da República Costa Gomes, de muitos padres e católicos progressistas. O silêncio do Bispo de Vila Real disse tudo e ainda hoje a hierarquia católica não tomou uma atitude, apesar do Cónego Melo, de Braga, estar envolvido com os operacionais do atentado que vieram a ser julgados. Toda a gente apontou o dedo acusador à rede bombista de ELP-MDLP que assolava o norte do país com uma onda de violência contra a ordem saída do 25 de Abril. Não pensou assim a Polícia Judiciária do Porto, cuja equipa de investigação era comandada por Mota Freitas, ele próprio condenado anos depois por pertencer ao MDLP e à rede de terror. As autoridades fizeram desaparecer provas e durante quase 20 anos abafaram o caso, como corajosamente sempre denunciou o advogado de Max e Lurdes, Mário Brochado Coelho. As consequências políticas mais gerais levaram a uma grande onda de repúdio popular e a um avanço importante no processo de democratização em Vila Real e, mais tardio, em Bragança. Em 1997, o Tribunal de Vila Real condenou a organização terrorista de Spínola e Alpoim Calvão como executora do atentado.

Qual a importância de o continuar a recordar?

Continuamos a acusar a intolerância e o ódio da extrema-direita, querendo blindar pela violência e pela opressão a desigualdade social, a desigualdade etnico-racial, a desigualdade entre géneros. O MDLP é o antepassado do atual Chega, sendo que o vice-presidente do Chega era dirigente do MDLP, Diogo Pacheco de Amorim. Toda a memória das fatalidades do fascismo e da extrema-direita são indispensáveis para travar essa tentativa de regresso do racismo e da reação. Por outro lado, o exemplo de Max é inspirador para todas as pessoas que são inconformadas com o capitalismo e o patriarcado.

Como é assinalada a sua memória este ano?

Neste ano de 2021 ,completam-se 45 anos sobre o assassinato e teria lugar a romagem ao cemitério de Vila Real, onde jazem Max e Lurdes, que muitos de nós levamos a efeito a cada cinco anos. Lamentavelmente, a pandemia do Covid-19 obrigou-nos a adiar essa iniciativa por impedimento legal e imperativo sanitário. Então, decidimos trazer Max e Lurdes à memória do presente através de uma carta aberta ao país, um Memorial, subscrita por mais de trezentas personalidades em testemunho antifascista. Os media apresentam esse Memorial a 2 de abril. Não vos mataram, semearam-vos!

 

Tributo à memória do padre Max junta mais de 300 subscritores nos 45 anos do assassinato

Lançada como homenagem quando passam 45 anos desde o seu assassinato, a carta aberta “In memoriam de Max e Lurdes” presta tributo à memória de Max e Lurdes, reunindo mais de 300 subscritores.

Luís Fazenda, antigo secretário-geral da UDP e fundador do Bloco de Esquerda é o impulsionador da carta tributo. Entre os mais de 300 subscritores encontram-se personalidades de todos os quadrantes da sociedade, do mundo político, cultural e académico.

Alguns dos nomes da política são o ministro Pedro Nuno Santos, a coordenadora do Bloco, Catarina Martins, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, as socialistas Isabel Moreira, Helena Roseta e Ana Jorge ou a social-democrata Teresa Leal Coelho.

Do Bloco de Esquerda subscrevem ainda, entre outros, Francisco Louçã, Fernando Rosas, José Manuel Pureza, Pedro Filipe Soares, Marisa Matias, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Beatriz Gomes Dias, José Gusmão e integrantes da Comissão Coordenadora Distrital de Vila Real.

Alguns nomes da cultura que apoiaram o tributo são Jorge Palma, Mário Laginha, Camané, Tiago Rodrigues, Valter Hugo Mãe, Rita Blanco, Miguel Guedes ou José Eduardo Agualusa.

 

45 anos depois do assassinato de Max e Lurdes

Padre Max e Maria de Lurdes foram assassinados há 44 anos

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