Extinção silenciosa do Gato-bravo em Montesinho

Gato Bravo em fotografia noturna em tons de cinza
Gonçalo Matias MR=A.2,AD=2/27/2019,RD=190,LI=3824,LF=1644,GH=0,BT=13,BL=5401,BP=75%,CM=Motion,CF=Disabled,IR=100%,P0=1,P1=2,P2=1,P3=3,P4=3,P5=1,P6=0,P7=0,P8=0,P9=0,PA=3
Foto por Gonçalo Matias
Investigadores avistaram apenas nove gatos-bravos em Montesinho, local que é considerado o bastião da espécie em Portugal, alertando para uma extinção silenciosa.

Reportagem da ‘Wilder’ revela que o investigador Gonçalo Matias, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa participou num estudo com resultados preocupantes para a conservação do gato-bravo (Felis silvestris), “Através deste estudo conseguimos identificar um cenário alarmante”, disse.

 “A espécie apresenta uma densidade significativamente reduzida, sendo que se não existirem medidas de conservação direcionadas para a mesma, esta poderá apresentar extinções a nível local.”

O Parque Natural de Montesinho, área protegida no Nordeste Transmontano (distrito de Bragança) com 75.000 hectares e onde vivem cerca de 9.000 pessoas, foi escolhido para este estudo por ser considerado o bastião da espécie em Portugal, que faz parte da metapopulação mais ameaçada da Europa, a ibérica.

Os investigadores aproveitaram a época de reprodução deste felino para o estudo que acontece entre janeiro e março, porque “É nessa época do ano que os gatos-bravos, principalmente os machos, percorrem uma maior área à procura das fêmeas”, explica Gonçalo Matias à Wilder e, por isso, “a sua detectabilidade pelas armadilhas fotográficas poderá aumentar”.

Estiveram em campo entre outubro de 2019 e março de 2020, cobrindo uma área de 423 quilômetros quadrados e em “3.477 noites de foto-armadilhagem, a partir de 34 câmaras”, tendo daí resultado 24 registos de nove gatos-bravos.

Utilizaram ainda estacas de madeira com atractivo (extrato de Valeriana) durante a época de reprodução “de modo a tentar obter amostras de pêlos dos indivíduos com o objetivo de obter uma identificação com base na genética”. Esse objetivo não foi conseguido, “infelizmente, não foi possível obter nenhuma amostra”, dizem.

Redução das presas e hibridação com gato doméstico são principal problema 

Segundo o artigo citado, a principal causa de ameaça para o gato-bravo em Montesinho é a redução da sua principal presa, o coelho-bravo. “A população de coelho sofreu um declínio acentuado, a nível Ibérico, devido à doença hemorrágica viral. Por outro lado, sendo o coelho uma espécie cinegética, pode ser legalmente caçada. Esta redução drástica na disponibilidade de presas para o gato-bravo tem um efeito negativo na sobrevivência deste no Parque”, disse o investigador.

Outra ameaça que o artigo aponta para esta espécie é a hibridação com o gato doméstico. “Apesar de não termos detetado nenhum gato doméstico nas armadilhas fotográficas durante o nosso estudo, juntos às aldeias dentro do Parque detetámos a presença da espécie doméstica. Uma vez que a densidade de gato-bravo é muito reduzida no Parque, os indivíduos que não conseguem reproduzir com parceiros da mesma espécie, poderão ter de procurar um parceiro na comunidade de gatos domésticos existentes no Parque, levando à hibridação”, conta à Wilder o investigador.

“Infelizmente, num futuro próximo a extinção do gato-bravo em Montesinho e a nível nacional poderá ser uma realidade”, alerta Gonçalo Matias. “Se não existirem esforços de conservação nos próximos anos, esta espécie poderá extinguir-se em Portugal.”

Os resultados desta investigação foram publicados num artigo da revista científica Population Ecology em Maio deste ano. Artigo completo da Wilder pode ser consultado aqui.

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