“Não há bailes no interior?”: as reflexões, opiniões e experiências de Mário Correia, diretor do Festival Intercéltico de Sendim.

Não se podendo “bailar” no interior este ano, quais os principais desafios para o setor cultural, quais as alternativas encontradas, quais as expectativas para o futuro e quais as medidas necessárias para que a cultura nunca pare? Estas foram as questões que motivaram o Encontro do Avesso “Não há bailes no interior?”, com a presença online de Artur Mendes (Boom Festival), Leonor Afonso (Quintanilha Rock) e Mário Correia (Festival Intercéltico de Sendim).

Mário Correia não acredita em ministérios da cultura, “em soluções providenciais, em planos de emergência que de emergência nada têm, quando chegarem já está tudo moribundo ou não respondem a situações.” Do mesmo modo, também não lhe interessa regressar à normalidade, “porque nós vivíamos na anormalidade”.

Interessante seria “acabar com a impunidade com que se trata, ou maltrata, a gente da cultura”, num país em que “normalmente, na distribuição dos pelouros, o da cultura é o que sobra”. Num país em que, “do ponto de vista da governança do poder”, “interessa sobretudo apoiar aquilo que tem um impacto a que eu chamo impacto “merdiático”. Portanto, “alto gabarito”, alto “foguetório”, que é “merdiático” por natureza.”

Exemplo para a normalidade anormal e para a revolta com a forma como a cultura é tratada, é a “impunidade com o que se passou, como se atuou, com os precários da casa da música”. Pergunta: “é esta a normalidade a que querem que regressemos? […] Eu, quando vejo a impunidade da Casa da Música, calo-me e pura e simplesmente digo ministros da cultura não muito obrigado!”

Normalmente um optimista, na situação atual Mário Correia declara-se um pessimista, “no interior vamos continuar em quarentena cultural, porque continua a não se perceber o que são as dinâmicas locais destes festivais, a importância que têm para as dinâmicas culturais, sociais e económicas, o envolvimento de pessoas, a autoestima, a coesão social, a divulgação destas terras, etc. Isto não passa por planos de emergência, isto passa por políticas nacionais realistas de apoio a atividades culturais em zonas que agora são consideradas deprimidas, mas são zonas que perdem população, que perdem peso eleitoral, e a partir daí o Terreiro do Paço deixa de olhar para elas.”

Mas quando fala de “festivais” e do seu Festival Intercéltico de Sendim, insiste em inseri-lo “num contexto do território”, em que “não é mais nem menos importante”. O que falta este ano não é só o Festival, mas também as festas da cidade, as romarias, os encontros de motards, os festivais de gaiteiros, os festivais de pauliteiros, as festas patronais locais… “O que está em causa neste momento é uma paisagem sonora do Nordeste Transmontano”, o que está em causa, diz, “é um terrível silêncio.”

O que está em causa “é uma paisagem sonora que está ferida de morte” por uma tempestade. Mas mesmo com a resistência, resiliência e paciência que o interior ensina, esta tempestade, “como diz Slavoj Žižek, aproximou-se da tempestade perfeita, está a pôr em causa valores civilizacionais”. É por isso que Mário Correia teme, na área da cultura, “que isto só tenha condições para piorar.”

“O maior património, o grande património, o património que dá sentido a esta terra, são as pessoas. Esse é o mais rico património! A última reflexão que eu gostava remete para aquilo que o Bob Dylan cantou, há muitos muitos anos, e que eu tenho reescutado que é “something is happening here but you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?” Vamos estar atentos e ver o que é que se está a passar, o que é que vai acontecer.”

 

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