Foto de Ana Lucas Marinho

Cheguei a Vila Real em setembro de 1997, exatamente há 22 anos. Quando ainda não havia promessas de Erasmus no interior, escolhi a UTAD e fiz o meu percurso académico em Trás-os-Montes. Comparando com os tempos de hoje tive a vida facilitada… as propinas tinham um valor bem abaixo do de hoje, havia alojamento disponível e a especulação imobiliária ainda não tinha feito estragos. Agora que vejo os estudantes a chegar à cidade faço contas à vida e não tenho a absoluta certeza se me teria sido possível frequentar o ensino superior nas condições de hoje.

Por outro lado, uma coisa não mudou muito… quando fui colocada em Vila Real percebi que de minha casa à universidade levaria 9h em transportes públicos. Sempre tinha achado que a música dos Xutos era uma hipérbole, mas não era. A mobilidade na região era um problema, tal como hoje, mas por diferentes razões.

Agora temos o túnel do Marão, a A4, a A24, a A7, mas a que custo? Prometeram-nos SCUTS sem portagens, discriminação positiva para os territórios do Interior, e afinal as pessoas e as empresas destas regiões gastam uma pequena fortuna do seu orçamento em portagens e combustíveis.

Falo obviamente de viagens em carro próprio, porque por cá, por muito que queiramos ser amigos do ambiente, os transportes coletivos são um problema crónico. E repito, transportes coletivos, porque públicos não são. Os transportes públicos servem a população, servem para criar uma rede de mobilidade que une os territórios, que leve as pessoas à escola, ao hospital, ao mercado, à cultura. Uma empresa de transportes coletivos por seu lado trabalha para pagar os seus funcionários e dar lucro aos patrões. E sim, precisamos de empresas, mais empresas de sucesso para criar riqueza na região, mas precisamos de assegurar que uma aldeia com 20 habitantes tem os mesmos direitos de acesso ao transporte que outra com 200.

Mas se de vias rodoviárias se pode dizer que estamos razoavelmente bem servidos, o mesmo já não se pode dizer de via férrea. Eu ainda sou do tempo em que havia comboio em Vila Real. Em Bragança, Cavaco Silva tinha acabado com ele há uns tempos. E este processo de encerramento e desvalorização da ferrovia foi tudo menos transparente. E para o Bloco de Esquerda uma rede ferroviária vai além da tão necessária mobilidade, é para nós uma estratégia de coesão territorial e descarbonização da economia. Pena que a direita e o PS não pensem assim e tenham chumbado o Plano Ferroviário Nacional que apresentámos no Parlamento.

Pena, muita pena… que nunca tenha havido um Governo que se tenha apaixonado por estes territórios, como eu me apaixonei e me fez ficar contra tudo e contra todos. Que as políticas tenham vindo sucessivamente a concentrar o investimento no litoral deixando mais de metade do país sem gente, sem serviços públicos, sem emprego. Ao Interior vêm buscar eletricidade, água, e se não houver muita gente por cá para reclamar do passivo ambiental que deixam para trás e que as medidas compensatórias compensam muito pouco, tanto melhor.

É preciso inverter o declínio e a desertificação. É preciso termos voz. É preciso imaginar um outro Interior.

Vamos imaginar um território, o nosso território, com hospitais públicos sem listas de espera, sem taxas moderadoras, com profissionais de saúde em número suficiente para que os serviços funcionem em pleno, com condições físicas e técnicas financiadas com os orçamentos que deixaram de ir para as PPP e a saúde privada, esse é o Interior que o Bloco quer fazer acontecer!

Vamos imaginar um território, o nosso território, com oferta de emprego, tanto pelo reforço dos serviços públicos como por políticas de apoio às empresas, com emprego de qualidade, sem precariedade. Emprego com a estabilidade essencial para se fazer planos de futuro. Emprego que garanta os direitos dos trabalhadores, emprego que não fique em risco porque se falou contra o patrão ou se vai ter um filho. Esse é o Interior que o Bloco quer fazer acontecer!

Vamos imaginar um país que protege os seus recursos naturais, a sua água, a sua biodiversidade, a sua floresta. Que tem políticas de reordenamento da floresta, que prioriza as espécies autóctones, que direciona a Política Agrícola Comum para uma transição ecológica das explorações florestais, agrícolas e animais. Esse é o país que o Bloco quer fazer acontecer!

Vamos imaginar que o concelho de Mondim de Basto tem estação de Correios, e que os CTT em vez de distribuir dividendos pelos seus acionistas até investe o lucro na melhoria dos serviços, porque já não é privado. Vamos imaginar que Vila Real tem estação de comboio e que a Linha do Douro já nos leva até Espanha. Vamos imaginar que há um reforço de todos os serviços públicos que foram fechando por todo o Interior. Que temos escolas de qualidade com programas do século XXI e com os olhos no futuro. Um Interior que oferece mais que qualidade de vida e belas paisagens, um Interior que oferece emprego, saúde pública e gratuita, escolas onde é um prazer aprender, esse é o Interior que vamos, todas e todos, fazer acontecer!

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Nasce em 1978 em Lisboa. Passa a adolescência em Tomar e segue para Vila Real onde se forma em Engª Agrícola e onde vive desde 1997. Ativa no movimento associativo desde sempre, pertence neste momento às Mães d’Água - Movimento pelo regresso do Parto na Água ao SNS e ao núcleo da Rede 8M de Vila Real. Mulher, Mãe e Ativista.

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