Vou contar-vos uma história, na primeira pessoa, sobre o nosso Sistema Nacional de Saúde.

Sou natural de Resende e escolhi viver aqui. Resende é uma vila a norte do distrito de Viseu. É um concelho com cerca de 11000 habitantes, dados dos CENSOS 2011, atualmente deve ter bem menos de 10000. Manter residência e trabalho no interior tem sido, nos últimos anos, uma decisão difícil e de grande resiliência. Temos perdido serviços, aqueles que vamos conseguindo manter estão degradados e a qualidade que oferecem deixa muito a desejar, os acessos ferroviários e rodoviários conduzem-nos a um isolamento indescritível, o trabalho é precário e, na maioria dos casos, politizado, não conseguindo cativar os mais jovens e os mais qualificados. Mesmo com estes e outros condicionalismos, escolhi viver aqui! Mantenho-me por cá com a minha família.

Há cerca de três semanas, uma das minhas filhas adoeceu. Passou a noite muito queixosa, de manhã as dores abdominais eram insuportáveis, fomos ao Serviço de Atendimento Permanente da UCSP de Resende. Esta USCP tem um serviço central na sede do concelho e dois pólos de saúde em duas freguesias. O pólo de saúde de S. Martinho de Mouros tem uma área de influência que cobre quatro freguesias, uma das quais a segunda mais populosa. Este pólo de saúde teve, até outubro do ano passado, dois médicos que garantiam as consultas a todos os inscritos. Um dos médicos reformou-se, naquela data, ficando cerca de 1200 utentes sem médico de família. O ACES Baixo Tâmega considerou que poderia remediar a situação com a possibilidade destes 1200 utentes serem atendidos, sem caráter de urgência, no Serviço de Atendimento Permanente (esta foi uma das soluções remediativas e provisórias para a falta de um médico). Tal solução remediativa, conduziu naturalmente a uma sobrelotação deste Serviço. Portanto, numa situação de urgência, a minha filha permaneceu cerca de 4 horas na sala de espera. As dores iam aumentando, bem como o desconforto decorrente da espera. De referir que o Serviço de Atendimento Permanente é assegurado por médicos avençados, política de “contratação” muito comum no SNS. Após 4 horas, foi chamada para ser observada. Era uma médica que estava pela primeira vez em Resende, com uma sala de espera sobrelotado e com evidente dificuldade de lidar com a pressão dos utentes que se encontravam a aguardar consulta há várias horas. Depois de a observar, fez carta para encaminhar a minha filha para o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa, Hospital Padre Américo em Penafiel. Como temos carro próprio, não foi requisitada ambulância, apesar da suspeita de apendicite e da necessidade de intervenção considerada urgente em situações como esta. 

Chegamos a Penafiel cerca das 16h00. Serviço de urgência pediátrica, triagem, pulseira amarela. O Centro Hospitalar Tâmega e Sousa foi construído para receber utentes de Penafiel e arredores mas atualmente recebe cerca de 500 000 provenientes desde Resende a Celorico de Basto. A área de abrangência é enorme. A urgência pediátrica estava a abarrotar, literalmente, vários bebés apenas de fralda, um calor insuportável, crianças com febre, tosse, prostradas, há várias horas sem comer a maioria delas. Cerca de 4 horas depois, a minha filha é chamada para ser observada. A pediatra pede ecografia, foi realizada no serviço de imagiologia do mesmo hospital mas não foi conclusiva. Pediu análises, duas horas a aguardar pelos resultados. Resultados compatíveis com inflamação de apêndice. 

Fomos de ambulância para o Centro Hospitalar do Porto, Hospital de S. João, encaminhados para cirurgia pediátrica. Hospital de S. João, após cerca de 2 horas repete-se a ecografia, desta vez consegue-se percepcionar o apêndice sem complicações. Chamadas à pediatra, esta afirma que teremos de regressar ao Hospital de Penafiel por não haver necessidade de fazer qualquer cirurgia. De forma bastante arrogante, diz-nos que podemos regressar de carro (eu tinha ido na ambulância e o meu marido de carro, e se não tivéssemos carro? E se não tivéssemos gasolina? Ninguém nos perguntou nada!). Questiono a segurança para a saúde da minha filha para podermos fazer a deslocação em carro próprio, a pediatra explica que a ambulância demoraria mais de 3 horas e que não havia risco. Espantoso, uma ecografia esfumou o risco que havia na saída do Hospital de Penafiel. Não questiono, não sou médica e tenho por hábito confiar nos profissionais de saúde.

Regressamos em carro próprio ao Hospital de Penafiel. Passariam alguns minutos da 1h00. Estávamos os três sem comer. A pediatra que estava a fazer aquele turno explica que a minha filha ficará em observações até ao dia seguinte, pelas 8h00, hora em que repetiria as análises. Pergunto se há possibilidade de forneceram refeição à minha filha é-me dito que não. As soluções apresentadas foram ir a casa buscar comida (de relembrar que Resende dista de Penafiel mais de 60 km e cerca de uma hora de viagem), ou comprar sandes na máquina de vending (ninguém nos perguntou se tínhamos dinheiro connosco). Portanto, desde as 10h00 até à 1h30 a minha filha comeu uma sandes mista e bebeu uma água!

A minha filha pernoitou numa maca, o pai numa cadeira de plástico e eu no carro. Ao que chegou o nosso SNS pensei durante todo este percurso…

No dia seguinte, repete as análises e já menos queixosa, teve alta passavam alguns minutos depois das 12h00. Teremos chegado a casa por volta das 14h00.

Reflexões que se impõem:

– Onde está a humanização dos cuidados de saúde primários, onde uma adolescente com queixas agudas, espera mais de 4 horas num serviço de atendimento permanente?

– Onde está a humanização dos cuidados hospitalares quando os serviços de pediatria atendem várias centenas de crianças e adolescentes num serviço de urgência com capacidade de resposta claramente deficitária? Onde está a garantia de qualidade de atendimento de profissionais de saúde exaustos e confrontados com pais também eles exaustos e muitas vezes já pouco tolerantes? Onde está a garantia de que o risco para a saúde está acautelado quando se faz uma viagem de ambulância e o regresso ao hospital de origem é feito em carro próprio?

– Como se sujeitam crianças e pais a pernoitarem, num hospital, em condições desumanas?

– Como se sujeita uma adolescente a passar a noite sem jantar como se tal fosse uma condição absolutamente normal? (sem haver indicação médica para jejum)

– Como se sai e se entra de várias unidades hospitalares sem haver um cuidado com a higiene corporal e alimentação dos utentes?  

 

Se me questionarem sobre os profissionais de saúde que temos, continuarei a dizer que, salvo exceções, temos os melhores que poderíamos ter. Profissionais que trabalham em serviços sobrelotados, sem condições físicas adequadas ao elevado número de utentes, profissionais carenciados de serviços básicos em unidades hospitalares, de tal forma exaustos que possivelmente nem se lembram das necessidades mais básicas dos seus utentes. Mas um SNS com bons profissionais não basta. Um SNS que se deteriora a cada ano que passa não pode motivar nenhum profissional. Um SNS que não se humaniza não consegue responder às necessidades das pessoas. Um SNS que não respeita os seus profissionais não poderá impedir que estes façam horas no privado. E tanto mais merece o nosso SNS! E tanto mais merecemos nós cidadãos! E tanto mais merecem os profissionais de saúde! Onde está a prioridade do investimento no SNS afinal?

Esta foi apenas a experiência de quem não foi ao privado, de quem decidiu confiar no SNS, de quem até tem ADSE e não foi a uma CUF ou ao um Hospital da Luz. Poderíamos ter ido mas, como sempre, escolhemos o SNS… Esta é a experiência de quem ainda acredita que é possível lutarmos por um SNS de excelência, universal, gratuito. Esta é uma experiência na primeira pessoa!

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Psicóloga, de 44 anos.
É natural de Resende, onde reside, trabalha em Lamego.
Candidata independente às Eleições Legislativas pelo Bloco de Esquerda.

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