Foi com esta pergunta que a minha filha me surpreendeu a poucos dias das Eleições Europeias,

“Mas… pode-se não votar?”

Esta criança de 10 anos ficou chocada quando percebeu que afinal todas as convicções, todo o trabalho, afinal pode ser em vão.

O meu peito encheu-se de orgulho, ao mesmo tempo que a minha cabeça se encheu de questões.

Como pode abdicar de votar 68,8% da nossa população quando para uma criança é tão óbvio o seu papel na sociedade?

E de tão óbvio, começo pelo óbvio.
Esta criança sempre acompanhou os pais às urnas em todas as votações que aconteceram desde que nasceu, está em pulgas para fazer 18 anos e poder fazer também a cruzinha onde bem lhe apetecer.
Esta criança esteve na rua a 15 de Setembro de 2012 e tem guardada algures nas suas memórias a imensidão de gente que se manifestou contra a Troika.
Esta criança esteve na linha da frente a fazer barulho com o seu bombo na Greve Feminista de Vila Real de Março passado.
Já foi a comícios, marchas LGBT+, debates, e apenas com 10 anos já aprendeu que para se construir um Mundo mais justo, é preciso agir.

Hoje é o dia seguinte. E no dia seguinte acabamos sempre no eterno debate acerca das causas da abstenção.
A culpa é dos partidos. “São todos iguais”. “Um bando de corruptos a encherem-se com o “nosso” dinheiro”. “Os políticos afastam as pessoas da política”. “A política afasta as pessoas, ponto”.
A culpa é das pessoas. “Preferem ir para a praia do que votar”. “Não se interessam”. “Nem sabem em que dia são as eleições”. “Uma cambada que só vê Big Brothers”.

Neste emaranhado de argumentos demagógicos, a pergunta que faço é, a cidadania e cultura política aprende-se onde? Será que a ministra Damares já nos conseguiu convencer que é por geração espontânea?

Não, não é por geração espontânea.

Não conheço nenhuma instituição verdadeiramente democrática e que convide à participação, a começar logo pela escola.

No sistema de ensino que temos se há coisa que se aprende logo desde pequenino é a acatar ordens, não questionar e não levantar muitos problemas. Depois vem o mercado de trabalho, salários baixos, trabalho precário, e se levantas muitas “ondas” o patrão manda-te embora porque há sempre alguém que tem de aceitar essas condições para conseguir sobreviver.

Então que vamos nós fazer? Vamos continuar a desculpar-nos com o sol que brilha em dia de eleição, ou vamos efetivamente trabalhar todos os dias por condições de trabalho dignas, por direitos humanos para todas e todos, por políticas de combate à emergência climática, por um Sistema Nacional de Saúde público e Universal, por uma Escola Pública que assente em práticas democráticas e participativas… Faça chuva ou faça sol.

Nasce em 1978 em Lisboa. Passa a adolescência em Tomar e segue para Vila Real onde se forma em Engª Agrícola e onde vive desde 1997. Ativa no movimento associativo desde sempre, pertence neste momento às Mães d’Água - Movimento pelo regresso do Parto na Água ao SNS e ao núcleo da Rede 8M de Vila Real. Mulher, Mãe e Ativista.

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