Quem nunca arremessou um caroço de cereja?

No seguimento do último texto e pegando na expressão “do cerejo ao castanho cá me amanho”, vamos desta vez pensar em cerejas.

Por ser tempo “delas”, temos bem presente o sabor deste magnífico fruto. É fascinante e quase hipnotizante o efeito que as cerejas têm em nós, não fosse tão popular a expressão, “as palavras são como as cerejas”, quando se começa não se consegue parar, cá para mim as cerejas são piores que as palavras, quando se começa, não há sequer palavra que resista.

No interior do nosso país, a cereja foi, é, e será um grande meio de subsistência, vejamos os exemplos de Proença, Cova da Beira e Resende, centenas de pessoas estão direta e indiretamente ligadas à produção e comercialização deste magnífico fruto, delas obtêm uma parte grande do seu sustento, muitos casos inclusive o único sustento.

De realçar também o movimento mais recente de promoção e divulgação deste diamante em bruto, com festas onde se junta a cultura e feira, onde o comércio e a diversão estão de mãos dadas, onde há um lado que quer vender e outro que quer comprar,

E tal como a desfolhada, a apanha de cereja sempre foi um espaço de encontro social, durante o trabalho, muitas vezes se ouvem cantos tradicionais, outras vezes se contam histórias antigas, ou que mais não seja, se discute uma notícia recente ou se fala de um penalti bem ou mal assinalado no jogo da véspera.

Com a fome que me deu vou mas é pegar num punhado de cerejas, acho que vou ainda relembrar velhos tempos e fazer um concurso de “atirar” caroços. Que memórias tenho de quando em garoto, fazer desafios com os meus amigos para ver quem atirava o caroço mais longe, a velha conversa das saudades do tempo em que não era preciso um telemóvel ou um computador para se ter uma brincadeira.

A nível gastronómico a cereja só por si já é uma sobremesa muito apreciada, mas como qualquer fruto é muito multifacetada, pode-se usar em saladas, em compotas, mas também podem ser usadas em molhos de carne, em pickles, ou até grelhadas, sim, experimentem, é um petisco!

Atenção amigos tenho um desafio:

1º passo: pegar numa mão cheia de cerejas

2º provar para ver se estão boas

3º por um brinco de cerejas na orelha

4º confirmar se estão boas( repetir de minuto a minuto)

5º pesar um kilograma de cerejas

6º descaroçar as cerejas, reservando os caroços

7º não esquecer de provar!

8º pesar oitocentas gramas de açúcar amarelo e juntar com as cerejas

9º cozinhar em lume brando, fazer um “embrulho”com os caroços e colocar em conjunto

10º retirar o “embrulho” ao fim de duas horas e deixar arrefecer o preparado

e “voilá”, temos uma bela compota de cereja

Estão curiosos quanto ao “embrulho”? Juntamos os caroços à compota porque os caroços têm um sabor amendoado, que “casa” muito bem com o sabor da cereja, dá um sabor mais aprimorado e complexo.

Usem e abusem da compota, de manhã com iogurte, à tarde com pão torrado, ou como vos apetecer.

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31 anos, natural do Alcaide, concelho do Fundão, Chef de cozinha, desde sempre interessado e ligado à cozinha regional portuguesa nomeadamente na zona do interior, já que mais não seja por vir de famílias ligadas à cozinha e ao fabrico de bolos e pão na sua terra natal.

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