Foto por Anime-X Portugal | Facebook

Vá, leitor, delicie-se quanto puder com este canal de filmes para crianças que
estou a ver. Em cena, uns monstrozinhos deambulam simulando parecer-se connosco e
expelindo lume e fumo por uma espécie de tubos que fazem de braços e de cauda.
Movimentam-se a cair no ar caindo sem chão e projetam ritmos de vertigem
esvoaçando sobre abismos impensáveis. Não posso dizer que estou a divertir-me.
Limito-me a confirmar o que já sabia destes programas de televisão que as crianças
engolem hipnotizadas.

Corro atrás da ação esfalfando-me, inutilmente, a seguir a passada hipersónica
das imagens. Fico sempre a milhas da distância de poder acompanhá-la. Agora, alguém
pede socorro e ouvem-se estaladas e gritos. Também me apetece gritar, mas contra eles.
Um bebé está na mão de um daqueles monstrozinhos e desfaz-se em fogo.
Mantém-se corpo, mas corpo negro. Perante o meu protesto, a criança a meu lado, de
olhos concentrados naquela estranheza, responde-me: “Chiu!”
Enfim, chegam anúncios. Parecem feitos de fogos de artifício mil vezes mais
estrelejantes do que os habituais. Percebo. Para miúdos, não podem ser apenas
inesperados; têm de ser inesperadamente tenebrosos. Tento novo comentário e a ordem
volta a perfilar-se imperativa: “Chiu!”
Também não sei a que propósito, anunciam que é o Dia do Dinossauro. Um
dinossauro está a ser massajado na cama e outros monstrozinhos riem a bandeiras
despregadas, garantindo não quererem sabotar o Dia do Dinossauro. Zangado, o nosso
“homem” não quer o pequeno-almoço e atira o tabuleiro para o caixote do lixo. Tudo
em modo metálico; também nos sons. A dada altura, aparece uma grua com braços que
levam à boca uma espécie de massas italianas; sempre em modo estridente. Não consigo
resumir o que sinto.
Outro monstrozinho pede para lhe fazerem uma massagem mais forte e, de
repente, um gigante agride-o. Não percebo a lógica. Cena seguinte: repousa mumificado
num hospital. Há quem cante tocando sem mãos uma guitarra que está dentro da barriga; dentro, sim. O dinossauro expele fogo e chora. Não percebo o que está a passar-
se, mas a criança a meu lado continua a mandar-me calar, enquanto o monstrozinho da
guitarra na barriga abre uma torneira e expele água pelos ouvidos.
O Dia do Dinossauro termina como Dia da Piza (posso cortar um zê? O
Ciberdúvidas diz que sim) e alguém pergunta se pode encomendar uma. Seguem-se
aventuras indecifráveis a propósito da transformação do Dia do Dinossauro em Dia da
“Pizza”. Além dos anúncios de pizas, desfilam de legos, de gelados e de outros que,
quase subliminares, não anotei. Enfim, habilidades comercialeiras que bem
conhecemos.
O que mais me dana é este corpo que se apresenta como radioativo e espalha
radioatividade com justificações professorais. Extermina tudo à volta criando um
ambiente aterrador para mim e, pelos vistos, banal para crianças. Esta outra escola está
muito longe de saber que não se pode brincar fabricando piruetas hiperativas deste
quilate. E, muito menos, que se pode trivializar a radioatividade com desenhos
animados destinados a crianças.
Tudo travestido como “cartoon” em “net” de trabalho. Isto é, desenhos
animados por muito maus sentimentos, antipedagógicos e antiestéticos, agressivos,
viciosamente hipersónicos e hiperluzentes, anti-humanos e afastados da vida. Estão em
palco para seduzir crianças que não têm outro brincar sem muitas destas drogas. As
escolas têm problemas, mas não se comparam com as escolas destes canais.

 

Artigo publicado no dia 16 de Janeiro no Semanário A Reconquista, na rubrica Cata-Ventos.

Artigo original aqui

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Nasce em Castelo Branco em 1944. Em 1961 vai estudar Físico-Químicas para a Universidade de Coimbra onde com a crise e a repressão académicas nasce a sua consciência política. No ano de 1969 integra os quadros do Serviço Meteorológico Nacional. Mobilizado para a Guiné Bissau, consegue no entanto ser destacado para Timor-Leste, onde permanece entre 1973 e 1974 a chefiar o Serviço Meteorolóqico.
Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002 para tentar desenvolver um projeto-piloto de regionalização de atividades meteorológicas.
É autor dos livros “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (1996), “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (2000) e dos livros de poesia "Corpo Aberto" (2016) e "De muitos ventos e utopia" (2018).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002.
É autor dos livros “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (Imagem do Corpo)” (2000), e da antologia “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (2002).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.

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