Tenho na democracia todas as minhas memórias; aquilo que vivi, as histórias que ouvi e a História que estudei. E é pela História que estudei que me custa ver e compreender certos acontecimentos actuais, com o populismo e popularização de movimentos e atitudes de intolerância étnica e xenofobia. (N.A.: Não concordo com o uso da expressão racismo, uma vez que o ser humano é uma só raça, com meras diferenças étnicas e culturais entre os seus povos.) Devido a esta actual conjectura de acontecimentos, tanto a nível europeu com os exemplos de Salvini, Erdogan e outros movimentos de extrema-direita em crescendo, como mundial, de que são exemplo óbvio Trump e Bolsonaro nos continentes americanos. Quero e tenho de acreditar que a intenção de edificar um museu ao ditador português e ao mais longo regime ditatorial da Europa seja a de manter viva na memória, dos portugueses e do mundo, a erronia vil das ditaduras. (Quer sejam elas republicanas de esquerda, direita, ou centristas! Quer sejam absolutismos na monarquia!) Preciso de acreditar que não há aqui da parte do edil de Santa Comba Dão, e do município que preside, uma jogada de turismo absurda, na procura de romarias de saudosos ignorantes do regime que não sofreram, para tirarem uma “selfies” e glorificarem o Estado Novo. Peregrinações de apoiantes iliteratos de causas que nem percebem, ofuscados pelo ódio da sua falta de educação, para homenagear e branquear um período negro da História de Portugal, para se ufanarem da sua ignomínia e solecismo.

Tenho de acreditar, para manter a minha sanidade, que o Estado Novo está em estado bafiento e que de entre o seu cheiro a mofo só surge a intenção de demonstrar o quão podre sempre foi. Infelizmente, ouço muita gente falar de boca (e barriga) cheia de como isto precisava era de um Salazar. Dizem-no orgulhosos, altivos e cheios de si, como costumam fazer os estúpidos, enquanto bebericam as suas bebidas importadas e ostentam o seu calçado e vestuário importado, pouco importados com os disparates verborreicos que cavaqueiam. Sem perceberem que só podem falar porque ninguém os vai denunciar, porque não há PIDE para os espiar, nem Salazar para os calar. Sem perceberem que estão calçados e vestidos, que foram à escola e comeram, porque não há Salazar para lho recusar, para encher os cofres do Estado à pala da sua fome e da miséria do povo.

Mas não nos enganemos em enleios, não quero de modo algum que se esqueça Salazar, antes quero que aprendamos com os seus erros, porque Salazar existiu e é pobreza e vileza na nossa História; talvez algumas pessoas precisem de um Salazar, para perceberem que não querem outro Salazar. A mim agrada-me a democracia.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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