Foto por André C. Macedo | Lago dos Caretos | Facebook

O interior, nomeadamente Trás-os-Montes e Alto Douro, é uma zona riquíssima, uma riqueza biológica e cultural imensurável que merece ser preservada e divulgada. É isso visível na diversidade das florestas, dos rios, das reservas naturais, das aldeias pitorescas e típicas, nas tradições como os caretos de Podence, já Miguel Torga o denominava como “um Reino Maravilhoso”.

Mas vamos falar de outra cultura, a cultura “viva”, que permita ao indivíduo desenvolver conhecimentos e capacidades intelectuais que o auxiliem na sua formação através dos conhecimentos adquiridos. Conhecimentos esses que adquirimos de livros, debates, peças de teatro, filmes, concertos, cinema, recitais, musicais, exercício físico… Um sem fim de atividades que todos conhecemos. Mas quantas dessas atividades acontecem no interior? Que diversidade de conhecimento podemos nós desenvolver e adquirir?

Atividades intelectuais como o teatro vão estando presentes, muito graças à persistência de associações e cooperativas que não desistem do interior. Projectos de descentralização teatral como o desenvolvido pela Filandorra, festivais como o FIN (Festival Internacional de Imagem de Natureza), o FAN (Festival de Ano Novo), o Boreal – festival de inverno, o festival Teatro e Dança de alunos que decorre em várias cidades de Trás-os-Montes, e até mesmo o (PAN) Festival Transfronteiriço de Poesia são alguns exemplos que temos de aplaudir e incentivar. Mas pecam, mais uma vez, por acontecer quase em exclusivo nas capitais de distrito.
Assim, na maioria das pequenas cidades e vilas, muitas atividades são uma miragem. Para se poder ler um livro não tão popular o mais certo é ter de se encomendar e esperar que não demore muitos dias a chegar, consoante estejam ou não os serviços postais demasiado ocupados, isto se não for extraviado pelo caminho. Vamos deixar-nos de leituras e ver um filme! Vamos à sessão semanal ver o único filme que estreia no centro cultural com umas semanas de atraso, ou então teremos de fazer uns quantos quilómetros e ir à capital de distrito para podermos ter alguma opção de escolha. Concertos resumem-se aos arraiais de agosto, magustos e a uma ou outra festividade que una os habitantes. 

Quem não tem ou conhece histórias de alguém que fez a viagem até ao Porto ou Lisboa para ir a um concerto?

As atividades culturais em pequenas cidades e vilas são escassas e pontuais. A atividade mais comum e, de um modo geral praticada maioritariamente pelo género masculino, é ao domingo se juntarem nos cafés e nas associações a jogarem cartas. Já a maioria dos jovens saem à noite para cafés, bares e discotecas.

Além das atividades culturais mais intelectuais anteriormente referidas, temos as atividades lúdicas e desportivas. Ainda é comum ser-se membro de uma banda filarmónica, de um grupo de folclore, grupo de bombos ou pertencer ao grupo de escuteiros. 

Estes grupos além de manterem viva a cultura de determinada localidade possibilita e alimenta o espírito de união e de comunidade sendo muitas vezes o ponto de encontro da maioria das pessoas. Além disso, permite viagens, experiências e encontros cada vez que se deslocam a outra localidade.

Grupos de escuteiros não precisam de grande apresentação, estão presentes em quase todas as cidades e vilas e permitem que os jovens desenvolvam um espírito de companheirismo, espírito de comunidade e que se desenvolvam enquanto pessoas.

Não poderíamos deixar de referir as atividades físicas sendo inequívoco que estas apresentam uma grande importância na promoção e desenvolvimento pessoal.
No interior, atividades desportivas, sobretudo ao ar livre e individuais são um privilégio. Temos longas florestas propícias à prática de btt, de caminhadas, escalada, rios nos quais se pode praticar inúmeras atividades, como nadar, pescar, canoagem, rappel… Estas atividades são realizadas de modo lúdico e na maioria das vezes sem supervisão ou sem intuito profissional.

Já a oferta de desportos coletivos, tal como seria de se esperar, são mais limitadas, sobretudo nas vertentes femininas. O futebol, o futsal e o basquetebol são os desportos que predominam na região. Isto é possível e justificado pela aposta em instalações municipais versáteis que permitem essa prática aliado à cobertura mediática que estes desportos recebem. 

Praticar um desporto não popular evidencia as dificuldades do interior, tais como logística, apoios, competitividade, transporte, instalações. A falta de associativismo desportivo da região é algo que também engrandece as já presentes dificuldades e o desporto extraescolar torna-se quase inexistente, uma vez que não há nenhum clube para representar. 

Devem ser criadas sinergias entre o movimento associativo e a comunidade para melhorar a oferta para uma prática desportiva diversificada e que responda a uma grande parte da população em condições que o permitam. Esse associativismo deve focar-se não só em desportos coletivos, mas também em desportos individuais, dividindo a aposta nas jovens promessas apoiando os pais e família nessa jornada.

Temos de admitir que tem havido uma crescente aposta em atividades físicas individuais ao ar livre, que se tem apostado em ecovias e passadiços, mas ainda há um longo caminho pela frente.

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Nascida em Valpaços, licenciada em engenharia pela UTAD. Ativista inconformada, fui membro da Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Neste momento mesmo distante não deixo de lutar contra as desigualdades do interior.

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