Quando ficar desconfinado hei de regressar ao Côa. Quero voltar a sentir a energia daquelas terras ancestrais. Quero voltar a contemplar com o olhar aqueles socalcos e o rio ao fundo. Quero que aquela singular paisagem me envolva. Já não irei apanhar as amendoeiras em flor bem sei. Mas hei de descobrir e aprender e (re)visitar o inconfundível Museu do Côa, cuja arquitectura de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel já ganhou prémios. A esse propósito na passada sexta feira (24/Abril/2020) a Fundação Côa Parque anunciou a incrível descoberta de um painel de figuras rupestres ao ar livre inscritas em rochas milenares incluindo a figura de um auroque, que por aquilo que afiança a equipa de arqueólogos- poderemos estar perante ““a maior figura da arte do Vale do Côa e de toda a Península Ibérica, e uma das maiores do mundo, apenas comparável com os auroques da gruta de Lascaux”. Uma descoberta absolutamente excecional que data do Paleolítico Superior (ca. 23 000 anos). Estes achados vão seguramente engrossar os núcleos de arte rupestre do Vale do Côa que pela sua relevância são Monumento Nacional estando igualmente registadas na lista de património mundial da UNESCO. Pertença da humanidade, portanto. Mais, fornecem-nos evidências e pistas de “onde vimos”, já que os habitantes que as desenharam pertenciam à mesma espécie que a nossa. Estudos recentes indicam que por ali já andavam há 80 000 anos demonstrando o quanto aquelas terras e aquele vale em particular foram (são!) um marco importante para a humanidade. 

É surpreendente a relação que estes artistas do paleolítico tinham com o mundo dos outros animais. A maioria das suas representações são sobretudo, auroques, cabras e cavalos selvagens. e cavalos selvagens.

E pensar que em 2017 foram vandalizadas fruto de um abandono que se acentuou durante o período da troika. Não fosse um incrível movimento cívico para a sua preservação e elas provavelmente nem existiriam hoje. Quem se lembra do: “As gravuras não sabem nadar!!” dos Black Company? Perante tanta resistência organizada Cavaco Silva, na altura primeiro ministro, chutou para Guterres. A construção da barragem do Côa acabou por ser suspensa para tristeza de alguma facção mais liberal da sociedade portuguesa. 

O património merece mais interesse, sobretudo político. Esperemos que com a crise económica que se avizinha este património histórico não volte a ser relegado para uma total invisibilidade e desinvestimento. Que os responsáveis tutelares sedeados no Palácio da Ajuda não se esqueçam, que existem mais horizontes do que o Tejo e os jardins de Belém.

1- https://rr.sapo.pt/2020/04/24/vida/descoberta-no-vale-do-coa-uma-das-maiores-figuras-de-arte-rupestre-do-mundo/noticia/190546/

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Licenciado em Antropologia pela Univ. Técnica de Lisboa, com a especialidade de Relações Etno-Culturais e Antropologia Biológica (2003). Realizou a Pós-Graduação em Evolução Humana e Mestrado em Evolução e Biologia Humanas pela Univ. de Coimbra. Doutorado em Antropologia Biológica e Etnoecologia pela Univ. Nova de Lisboa e Univ. de Cardiff, Reino Unido(2013). Fez o Pós-Doutoramento no recente criado HPI-Lab (Laboratory for Infectious Diseases Common to Human and Non Human Primates) em Brno, República Checa, pertencente à Faculdade de Medicina Veterinária da University of Veterinary and Pharmaceutical Sciences (2012-2014). Tem experiência na área de Ecologia Molecular, Mastozoologia, sendo especialista em Primatologia, mas também em Parasitologia, Genética da Conservação, Filogeografia e Etnobiologia de primatas africanos com ênfase na África Ocidental e em particular na Guiné-Bissau, onde trabalha desde 2007.

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