O escritor Gonçalo M. Tavares escreve no seu “Diário da Peste”1 publicado na revista E do jornal Expresso que esta crise pandémica de COVID-19 que estamos a viver está intimamente ligada ao elemento ar. Não discordando dele penso que toda esta fatalidade é toda ela terra. Cumpriram-se 18 250 dias, cinquenta translações completas, ou transposto para uma medida mais fácil e próxima de visualizar – 50 anos – de Dia Mundial da Terra. Eppur si muove! —exclamaria Galileo. Um dia que visa por um lado, celebrar o planeta onde habitamos, mas por outro expor e denunciar o que de pior os humanos estão a causar ao planeta em termos ambientais. Será só mais um dia desprovido de significado dirão alguns. Pode ser. Mas dadas as actuais circunstâncias seríamos no mínimo cruéis não querer reflectir sobre o estado do planeta tal como ele se encontra hoje e como o queremos ter depois deste “Grande Confinamento” passar.

Esta pandemia deriva de uma doença infeciosa emergente. Emergência– uma palavra que sentiremos tatuada na pele e na mente. Uma marca. Quiçá um ritual de passagem? Como doença infeciosa emergente que é, quer isto dizer que houve um micro-organismo que saltou de uma espécie hospedeira que conhecia, com quem tinha coabitado e evoluído, para uma outra espécie que não conhece de todo. Contornando as defesas imunológicas do novo hospedeiro, ultrapassou a barreira da especificidade em termos biológicos e corre agora para conseguir completar o seu ciclo de vida recorrendo a um método agressivo de contágio para se propagar. Mas mais agressivos foram desde logo os humanos que na sua ganância de pilhar recursos naturais, destruindo ecossistemas, fragmentando habitats, e extinguindo espécies foram os promotores do chamado risco zoonótico, ou seja, potenciaram a transmissão de um agente infecioso de uma espécie animal. Encontramo-nos por isso onde tudo fizemos para estar! Houve avisos? Claro! Mas foram menosprezados como sempre, por quem anda a toque do poder do capital. Esta agressividade humana perante o mundo natural reside em algo mais profundo que só talvez uma psicanálise colectiva consiga revelar. Teremos de conseguir ver para além do eterno antropocentrismo de considerarmos que a natureza só existe para nos servir!

Para que fins existe então a natureza? Esta questão mereceu uma profunda reflexão do filósofo e poeta norte-americano: Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Emerson publica um ensaio que o viria a tornar mundialmente reconhecido – “A Natureza” (1836) traduzido e publicado entre nós pela Relógio D’Água2. Nesta que é talvez a sua magnum opus, Emerson emerge profundamente no sentido de existência e essência da Natureza. Um ensaio que permanece fresco e profundamente contemporâneo e que vale a pena agora revisitar. Começa por questionar se a paisagem natural tem dono para logo imediatamente a seguir nos dizer que: “o horizonte não pertence a nenhum homem, mas aquele cujo olhar pode abarcar todas as suas componentes, esse é poeta” (p.76). Para Emerson a Natureza categoriza-se essencialmente em quatro grandes funções: bens essenciais, beleza, linguagem e disciplina. Assegura ao homem um aprovisionamento regular de bens que lhe permite sustentar-se sendo o campo simultaneamente terra, armazém, recreio, jardim e cama. Mas a natureza também permite ao homem conhecer o belo e poder apreciar as coisas em si e por si mesmas. É através da natureza que: O olho se torna o melhor dos compositores e a luz o primeiro dos pintores.” (p.80). Mas também é linguagem já que a natureza se torna no veículo de pensamento pois a comunicação por símbolos constitui os “elementos de todas as línguas” (p.87) e assim, transmuta-se em metáfora da mente humana. E por fim, natureza é disciplina. Para Emerson a natureza tem uma capacidade ilimitada de nos ensinar, porque assenta no princípio da unidade na diversidade: “Uma folha, uma gota, um cristal, um momento no tempo, estão ligados ao todo e comungam da perfeição desse todo” (p.95). Como poderemos continuar a aceitar então que a nossa economia assente numa provocação de desequilíbrios ecológicos com o seu híper consumismo e ultra extrativismo sabendo então que o SARS-Cov-2 é consequência? Como Emerson diria: “é uma partícula de um microcosmos que reflete fielmente a imagem do mundo.” (p.95).

Mas volto ao horizonte e ao poeta e é inevitável não evocar aqui Albano Dias Martins, o poeta do Fundão, o poeta da paisagem como alguns apelidam: “Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir os móveis e o tato. / Preciso de opor o tempo ao tempo. O espaço ao espaço.”3 Precisamos, pois, de arrumar a casa e este é o espaço-tempo para o fazermos.

Rui Sá – Bioantropólogo, Professor e Investigador no CAPP/ISCSP- Centro de Administração e Políticas Públicas da Universidade de Lisboa.

2 “A Confiança em si, A Natureza e Outros Ensaios” de Ralph Waldo Emerson (2009). Relógio D’Água.

3 In “Crepúsculo de Agosto” de Albano Dias Martins.

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Licenciado em Antropologia pela Univ. Técnica de Lisboa, com a especialidade de Relações Etno-Culturais e Antropologia Biológica (2003). Realizou a Pós-Graduação em Evolução Humana e Mestrado em Evolução e Biologia Humanas pela Univ. de Coimbra. Doutorado em Antropologia Biológica e Etnoecologia pela Univ. Nova de Lisboa e Univ. de Cardiff, Reino Unido(2013). Fez o Pós-Doutoramento no recente criado HPI-Lab (Laboratory for Infectious Diseases Common to Human and Non Human Primates) em Brno, República Checa, pertencente à Faculdade de Medicina Veterinária da University of Veterinary and Pharmaceutical Sciences (2012-2014). Tem experiência na área de Ecologia Molecular, Mastozoologia, sendo especialista em Primatologia, mas também em Parasitologia, Genética da Conservação, Filogeografia e Etnobiologia de primatas africanos com ênfase na África Ocidental e em particular na Guiné-Bissau, onde trabalha desde 2007.

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