A cerimónia que decorreu no sábado na Lousã, da entrega de 63 máquinas no valor de 11,7 milhões de euros, “para aumentar o ritmo de abertura de faixas de gestão de combustível”, revela bem que este Governo esqueceu-se do que significa a palavra socialismo.

Apostar no setor da Conservação da Natureza e das florestas sim, mas em primeiro lugar é preciso apostar nos trabalhadores, porque as máquinas hoje entregues não se conduzem sozinhas, serão conduzidas por homens e mulheres que fazem parte dos Sapadores Florestais, mais responsabilidade, salário igual.

Em Portugal muda-se de governo, mas a propaganda é a mesma, é preciso show mostrar o que na verdade não somos, alimentar o lóbi dos amigos e cada vez mais empurrar os trabalhadores para o esquecimento.

Precisamos de um Governo que tenha a coragem de reconhecer o esforço de quem está todos os dias empenhado em proteger o que é de todos nós, que tenha a firmeza de apostar no aumento dos salários, na revisão e criação de carreiras e estatutos profissionais, que tenha a capacidade de fiscalizar a atribuição de apoios públicos e impedir o uso indevido desses apoios.

É lamentável vermos trabalhadores do Corpo Nacional de Agentes Florestais e Vigilantes da Natureza que estão afetos ao ICNF sem fardamento e equipamento de proteção individual adequado às suas funções, por vezes sem material para puderem trabalhar, carrinhas paradas há meses à espera de uma requisição, não existir equipamento de monotorização de espécies (onde houve um grande investimento público).

Por esse país ainda podemos encontrar Sapadores Florestais, sem equipamentos de proteção individual (EPI), tanto de silvicultura como ignífugos, para não falar das miseráveis condições que muitos estão sujeitos por nem terem uma base onde possam ter a dignidade de mudar de roupa ou tomar um duche depois de um dia de trabalho.

Onde existem entidades privadas que recebem apoios públicos com mais de 10 anos de falhas na prestação da Segurança Social, lesando o Estado e os Trabalhadores em milhares de euros, sem que haja uma punição da ACT ou do Ministério Público.

Assistimos à política dos baixos salários desajustados com as funções que executam diariamente e sujeitos a todo o tipo de riscos, dos salários em atraso e respetivos subsídios, dos atropelos constantes às leis do trabalho, do não pagamento do trabalho suplementar realizado aos fins-de-semana sobretudo durante o período do verão.

Estas e muitas outras coisas que revelam bem que nem este Governo nem os anteriores se preocuparam muito com os trabalhadores.

Os decisores políticos têm que sair do alto do seu pedestal e perceber que os trabalhadores da floresta, são os seus Ativos mais importantes e que se justifica com toda a justiça, um investimento sério, justo e merecido.

Para o Ministério do Ambiente e Ação Climática, não passamos de meros números, onde só somos verdadeiramente úteis e importantes quando se lembram que é preciso criar mais faixas de gestão de combustíveis, quando os Sapadores Florestais já existem há 21 anos sem uma aposta efetiva na melhoria dos seus salários e condições de trabalho.

Os Sapadores Florestais, a CNAF e os Vigilantes da Natureza, apenas exigem uma Carreira/Estatuto Profissional e a Revisão da Carreira dos Vigilantes da Natureza, aliás, Carreiras e Revisão de Carreira prometidas pelo Sr. Secretário de Estado, Eng.º João Catarino.

Mas o importante é a propaganda, por isso lanço um apelo a todos os trabalhadores da conservação da natureza e das florestas para que se unam em torno de mudanças efetivas, onde possamos ser reconhecidos e valorizados não só pelo governo, mas também, por todas as forças políticas em Portugal, para que de uma vez por todas se tenha a coragem de dignificar e valorizar os trabalhadores.

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Natural da Guarda a residir em Viseu. Sapador Florestal da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões. Coordenador Nacional do Setor da conservação da natureza e florestas do Sindicato Nacional da Proteção Civil, membro do secretariado executivo e do secretariado nacional. Estudante do Curso Técnico Superior de Proteção Civil na Escola Agrária de Viseu. Escreve uma crónica no portal dos bombeiros.pt. Esteve sempre ligado à conservação da natureza e florestas.

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