As autoridades públicas costumam andar em viaturas ligeiras e, por isso, apresentam pouca sensibilidade para as questões que afetam o dia-a-dia das pessoas que não possuem carro e precisam de se deslocar a pé. Na prática, só conhecem a cidade pela janela dos seus automóveis. Entretanto existem caminhos, que são essenciais para a deslocação diária das pessoas, e são invisíveis para quem está num carro. São muitos caminhos que estão em total estado de abandono, sem um mínimo de infraestruturas implantadas, passeios e iluminação.

Como exemplo temos 5 caminhos essenciais para a população da Covilhã. Esses caminhos estão identificados no mapa da Figura 1 com a cor castanho claro.

Figura 1 - Mapa com a localização dos caminhos identificados

O Caminho que liga a Alameda Pêro da Covilhã à Rua da Olivosa (Figura 2) é uma ligação essencial da cidade com a zona onde se localiza o Centro Hospitalar Universitário Cova da Beira, a faculdade de Medicina da UBI, entre outros importantes pólos de atratividade urbana, como grandes lojas e centros comerciais. Este caminho é muito importante e, por isso, muito usado pela população para diminuir a distância dessa zona para outras áreas mais centrais da cidade. Trata-se de um caminho longo, com cerca de 170 metros, sem pavimentação ou iluminação pública. Atravessa o caminho de ferro, numa passagem improvisada, sem sinalização, onde a vedação foi cortada para fazer face às necessidades dos passantes.

Figura 2 - Caminho que liga a Alameda Pero da Covilhã à Rua da Olivosa

Nos dias de chuva, tem poças e muita lama, ficando o caminho escorregadio e perigoso. Apresenta trechos em subida, sem escada ou corrimão. Em noites escuras, nada se vê sem o auxílio de uma lanterna.

Ao lado do Jardim do Monumento à Nossa Senhora da Conceição, existe um outro caminho essencial (Figura 3), que facilita a vida de muitas pessoas, ao reduzir o percurso entre a parte mais baixa da cidade e a zona da Reitoria da UBI. O percurso é muito usado por estudantes e moradores da zona. Esse caminho tem um troço íngreme, quase escarpado, não possui nenhuma infraestrutura, como passeio, escadas ou iluminação. São 180 metros de precariedade.

Figura 3 - Caminho que passa perto do Monumento à Nossa Senhora da Conceição

O cruzamento entre a Alameda Pêro da Covilhã e o Eixo TCT é feito através de um viaduto, que na sua construção ignorou a possibilidade de o peão mudar de via. Não foi construído um caminho adequado para as pessoas que pretendem fazer a pé essa ligação. A necessidade das pessoas fez a marcação no chão das duas laterais do viaduto (Figura 4Figura 5), com os rastros do intenso caminhar. Esses são caminhos de grande necessidade e sem nenhuma condição adequada de segurança e conforto. São subidas muito inclinadas, muito escorregadias nos tempos de chuva.

Figura 4 - Caminho ao lado do viaduto da Alameda Pero da Covilhã sobre o Eixo TCT

Figura 5 - Caminho ao lado do viaduto da Alameda Pero da Covilhã sobre o Eixo TCT

Nas proximidades do Jardim da Goldra, existe um caminho não urbanizado que reduz o percurso das pessoas entre a zona do Jardim e a rua José Ramalho. É um pequeno trajeto, entretanto, as pegadas das pessoas demonstram a importância dessa ligação (Figura 6).

Figura 6 - Caminho entre o Jardim da Goldra e a Rua José Ramalho

Outro caso de desleixo das autoridades, bem aos olhos de toda a gente, é o caminho entre a Alameda Europa e a Rua Conde da Ericeira, perto do Jardim do Lago. Esse caminho (Figura 7) evidencia outro sério problema do planeamento da cidade, que é o posicionamento de diversas passadeiras. Elas foram implantadas com foco exclusivo nas viaturas e seus utentes, sem se preocupar em aumentar o percurso ou manter os caminhos de desejo dos peões. A passadeira em frente a esse caminho poderia estar mais bem posicionada, garantindo um percurso mais curto e lógico para os peões, a exemplo de não existir passadeira, deste lado, em direção da estação de camionagem.

Figura 7 - Caminho Entre a Alameda Europa e a Rua Conde da Ericeira, perto do Jardim do Lago

Lembra-se de outros caminhos na nossa cidade? Quer contribuir para a sua identificação e mapeamento? Envie foto com localização e um pequeno descritivo explicando por que razão é um caminho essencial, para o e-mail do Interior do Avesso  – geral@interiordoavesso.pt

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Brasileiro de Salvador, Bahia, residente desde 2015 na Covilhã, Cova da Beira, Portugal. Arquiteto especialista em urbanismo sustentável, atualmente faz doutoramento em Sociologia na UBI. Pesquisa questões que relacionam a mobilidade, participação pública e o despovoamento do interior.

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