De maioria em maioria até ao preconceito final

Antes de começar o texto propriamente dito, devo dizer que como democrata que sou, respeito as maiorias, seja ou não membro integrante das mesmas. No entanto, quando falamos de maiorias no que respeita a escolhas ou opções individuais considero que estas devem significar pouco mais que nada. Num máximo, devem tocar apenas na linha da opinião ou nem isso.

Por exemplo, no que toca à eutanásia ou “com quem casa quem”, por muito que as pessoas possam ter uma opinião, seja ela ou não maioritária, esta não deve interferir na vida e escolha de cada um ou cada uma.

Com a ressalva inicial e para apelar ao altruísmo de respeito pelas minorias será importante demonstrar que praticamente todos nós pertencemos a maiorias e minorias, por isso, se só sentindo na pele percebemos um lado e outro…Vamos a isso!

Sou homem, heterossexual e branco, o que significa que pertenço a uma minoria (Se concebermos estas 3 características, claramente serão menos de 50%) superprivilegiada. Quando achamos que temos que pertencer a uma maioria para atingirmos o privilégio, geralmente é ao contrário, depende é de que minorias falamos. Se falamos das minorias ostracizadas pela sociedade (ciganos, afrodescendentes, LGBT´s) ou de uma maioria (mulheres) que sente todos os dias na pele as garras de uma sociedade machista. Se falamos de uma minoria que ostraciza (1% mais ricos), a uma maioria ostracizada (os outros 99%).

Comparar privilégio é sempre uma dura tarefa. Depende sempre do que nós definimos como prioritário para o definir. Eu concebo como prioritária a questão económica, mas poderia considerar o género, a orientação sexual ou todas em simultâneo, que até será o mais correto, pois o facto de termos determinado género ou orientação sexual pode influenciar a nossa condição económica e por inerência estão relacionadas.

Mesmo sem nos apercebermos, todos e todas nós, provavelmente já ostracizamos um grupo de pessoas (maioritário ou minoritário, como vimos acima acaba por ser irrelevante).

Curiosamente, mesmo pertencendo a um grupo privilegiado (não vale a pena dizer que não o é, porque é factual), pertenço a uma quantidade imensa de minorias ostracizadas. Vivo e sou do interior, de uma região rica em agricultura, mas ao mesmo tempo uma das mais pobres da Europa, nascido e criado numa aldeia. Como se não bastasse, sou de esquerda numa região conservadora.

Não é, portanto, a percentagem que define se determinado grupo é ou não privilegiado. A palavra essencial para esta discussão nunca será maioria ou minoria, serão sempre tolerância, igualdade e equidade. Não precisamos sequer de ser altruístas para ser tolerantes, precisamos apenas de saber conviver com a diferença que é somente o melhor que têm os seres humanos, a característica mais singular que nos distingue, a diferença física mas também as diferentes formas de pensar.

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Jóni Ledo, de 31 anos, é natural de Valtorno, concelho de Vila Flor. É licenciado em Psicologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicologia da Educação. Frequenta atualmente o 3ºano da Licenciatura em Economia na mesma instituição. Foi Deputado na Assembleia Municipal de Vila Flor pelo BE entre 2009 e 2021. É ativista na Catarse | Movimento Social e cronista no Interior do Avesso. É atualmente dirigente distrital e nacional do Bloco de Esquerda.

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