O que fazer com este corpo?

O filme “120 batidas por minuto” (“120 battements par minute”) termina com a ação de lançamento das cinzas, num evento de uma seguradora de saúde, de um dos protagonistas que morreu de sida.
"120 Batimentos Por Minuto" (2017), de Robin Campillo
“120 Batimentos Por Minuto” (2017), de Robin Campillo

Sean Dalmazo, a vítima dessa infame epidemia, deixou assente que quando morresse pretendia um “funeral político”. E sua mãe, seu namorado e seus amigos ativistas, uns seropositivos outros não, deram seguimento ao seu desejo. O filme é notável por várias razões mas o que aqui me chamou atenção foi essa necessidade de politização dos corpos num filme que mistura ficção com documentário. Cada corpo é uma espécie de constelação política. São os corpos que sofrem de violência e são também os mesmos corpos que se emancipam; que são corpos que expressam tristeza ou corpos alegres; corpos passivos e sedentários ou corpo ativos e efervescentes; corpos amolecidos pela dureza da vida ou corpos enfurecidos. Pelas marcas (interiores e exteriores; físicas e psíquicas) de cada corpo conseguimos traçar a genealogia das suas lutas sociais/políticas. O corpo marcado de cicatrizes de um indivíduo negro pode denunciar as marcas do racismo. O mesmo se passa com o corpo da mulher, não apenas quando é violentado pela força bruta machista, mas também quando é adestrado de forma a se tornar aprazível principalmente à cupidez masculina. O corpo oculto da mulher muçulmana coberta pela burca reflete a dominação patriarcal fundamentada em premissas religiosas. Também o corpo mutilado do operário fabril reflete os danos causados por um acidente de trabalho ou a simples exposição a um processo produtivo. A expressão “sair do armário” que simboliza a afirmação pública da orientação sexual do gay define também a importância da afirmação do corpo enquanto corpo homossexual. As designadas marchas de orgulho gay fazem parte desta estética dos corpos que é intrinsecamente política. A afirmação do corpo como corpo singular, heterogéneo, queer (esquisito), é uma afirmação contra a imposição de um modelo único de sociedade e de sua pretensa (e fascizante) normalidade.

A pergunta: “o que fazer com este corpo?” é uma pergunta inteiramente política que no caso do nosso personagem da organização política Act Up tem efeitos para além da sua morte. O corpo não é portanto o componente profano da vida humana que contrasta com o caráter sagrado da alma ou do espírito. A dualidade alma/corpo é um resquício religioso de que nos importa libertar em prol da libertação individual e coletiva dos corpos. O corpo é o tal campo de batalha que cada um de nós transporta ao longo da sua vida. A decisão sobre o que fazer com o nosso corpo em sociedade é, no limite, uma decisão sobre a vida e a morte, e, claro, sobre a liberdade ou a subjugação. Como diria esse grande filósofo da corporeidade, Espinosa: “o fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer”.

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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