“uma época não muito distante da nossa, os religiosos europeus se perguntavam se os selvagens da África e os indígenas do Brasil podiam ser considerados gente.” (p. 572)

Houve um tempo em que ser negro era considerado um defeito. Para exercer alguma atividade ‘de branco’ a exigência imposta era clara: renegar sua cor. Formalizava-se, portanto, um pedido de dispensa para o ‘defeito de cor’.  A prática não é tão antiga. Valia até cerca de 200 anos atrás. Ainda parece mais próxima no tempo quando, ao renovar o tom da manifestação, um deputado passa a defender a deportação de uma colega. O pedido extemporâneo tem no tom da pele da deputada a única justificação, cuja nacionalidade, Guiné Bissau, não agrada ao manifestante. Estende-se pelo campo de futebol o defeito de cor. Ali, no gramado que não tem culpa de ser verde, um jogador escolhe se retirar. A bola do racismo não faz gol.

‘Um defeito de cor’ é um livro, que me impactou bastante, escrito por Ana Maria Gonçalves. Lançado em 2006 e escrito em primeira pessoa, conta a história de uma mulher, nascida no reino de Daomé, atualmente Benin. Ela foi sequestrada por mercadores portugueses quando tinha 8 anos de idade. Levada ao Brasil como escrava, passa a viver aquilo que o tráfico de pessoas provoca: o desenraizamento e os horrores. A história se baseia em relatos encontrados pela autora nos escritos da década de 1880, nos quais a própria protagonista quer revelar a sua história para o seu filho, que aos 10 anos foi vendido como escravo pelo pai português.

Figura 1- Luísa Mahin, gravura encontrado no site Central das Divas

Defeito de Cor foi premiado em 2007 pela Casa de las Américas. Interessou-me o livro porque o antigo presidente do Brasil, Lula da Silva, em entrevista dada no dia da Consciência Negra, em 20 de novembro de 2019, mencionou o livro. O dia foi instituído para promover a reflexão sobre o racismo.

A história da menina que foi escravizada constitui um relato chocante. Ali, coisas terríveis são descritas, de um passado não muito distante, de mais de 300 anos, que envolve diretamente Portugal diante de uma das grandes atrocidades da humanidade: o tráfico de pessoas pelos mares.  As pessoas levadas eram lavadas de sua identidade, não da sua cor. Perdiam terra, cultura, religião, família, inclusive seus próprios nomes.

Esse é um passado para ser melhor conhecido. Conhecer e reconhecer evita que atravessemos o mesmo caminho das pedras e afundemos o barco da história.

Figura 2 – Luís Gama, Fotografia encontrada no site DW

A protagonista, Luísa Mahin, foi guerreira contra a escravidão, participou da revolta dos malês, em 1835, foi mãe de um dos maiores abolicionistas do Brasil. Seu filho foi o rábula, escritor e jornalista, Luís Gama. Vendido pelo próprio pai, em 1840, como escravo, conseguiu se libertar aos 17 anos, quando também se alfabetizou e iniciou sua luta para libertar outros escravos.

Os relatos encontrados pela autora, estão em uma longa carta ditada por sua mãe, mas que provavelmente não chegou às suas mãos, pois nos relatos existem factos narrados em 1887, e ele morreu em 1882, o que indica que quando foi escrito, Luís Gama já havia morrido.

Se o povo português tem orgulho de um passado glorioso, do grande império português, que dominou metade do globo, haverá de dispensar o que era, outrora, defeito de cor. Saberá, sobretudo, que assim como no verde campo de futebol cabem todos os que jogam dentro das regras, também nos mares azuis cabem todas as bandeiras que respeitam os limites políticos. Sabe bem o povo português ouvir todas as vozes, pois têm a cor humana, única expressão que pode exortar os direitos de todos, com todas as cores, credos, nacionalidades, culturas, idiomas, expressões ao que mais nos interessa: o viver com dignidade. 

 

Este texto contou com a colaboração de Isabel Lima.

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Brasileiro de Salvador, Bahia, residente desde 2015 na Covilhã, Cova da Beira, Portugal. Arquiteto especialista em urbanismo sustentável, atualmente faz doutoramento em Sociologia na UBI. Pesquisa questões que relacionam a mobilidade, participação pública e o despovoamento do interior.

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