Foto por Hugo Chinchilla / Flickr

Questão premente para e na construção da identidade étnica, ética e cultural dos povos, a diferença, talvez hoje mais do que nunca – considerando o questionável avanço sócio-cultural e educacional – representa um nível devastador de medo e intolerância que, ao invés de dissiparem, aumentaram e se propagam terrificamente, derrubando as pontes e vias de contacto e tolerância que se cria terem vindo a construir-se no passado. Pois que, portanto, racismo e xenofobia, os quais se queriam cousas do passado, alicerçam actualmente o debate mais fundamental para o nosso futuro enquanto espécie e sociedade.

O preconceito e o medo, gerados na intolerância e na aversão ao diálogo e convivência, continuam a fomentar a escalada dos conflitos inter-humanos e são uma força crucial e miserável contra o desenvolvimento e evolução da espécie, quer na sua relação social, quer na sua relação e comunhão com a natureza e o cosmos.

Desde o início das civilizações que o ser humano é movido pela cobiça do alheio e pela intolerância e incompreensão das diferenças e diversidade que, distinguindo-nos mutuamente, nos unem intelectualmente, facto que se regista tanto historicamente como no folclore, de que é óbvio exemplo o mito de Babel. Aliás, esta imposição de uma origem divina para a “discórdia linguística” entre povos e nacionalidades reveste-se, diria, numa “desculpa esfarrapada” para atribuir à natureza, e não ao ser humano, a tendência para o conflito e o desentendimento.

Posto isto, entristece-me, muito sinceramente, o aberrante orgulho expresso por alguma gente, aquando da partilha dos seus enviesados preconceitos, falta de respeito pelo próximo e total incapacidade de espírito crítico e de raciocínio provocados por uma devota aversão e apatia pela educação e desenvolvimento intelectual. Há como que uma sobrecarga que contraria o fluxo natural e provoca uma inversão da instrução. A possibilidade e liberdade de viver numa sociedade culta e dignificadora do conhecimento e raciocínio seduz essa mesma sociedade a corromper e rejeitar a (boa) educação a que tem acesso e a embrenhar-se no assédio do embrutecimento fácil e simplório.

Numa espécie de fenómeno contraproducente e mal-estar auto-infligido, a Era da Informação tornou-nos, pelos seus excessos e facilitismos, mais estúpidos, despreocupados e comodistas. Não fazemos contas de cabeça porque em qualquer engenhoca há uma máquina de calcular; A indústria livreira queixa-se da pirataria e procura adaptar-se às novas tecnologias, contudo não lemos porque é aborrecido, “mais vale esperar pelo filme”; Filme esse que tem de ser de uma futilidade brejeira e torpe, que sirva apenas como mero entretenimento e para passar o tempo e não provoque qualquer profundidade de pensamento, porque de contrário, salvo raras excepções, “é uma seca e não vale a pena ir ver”. (Quero desde já deixar aqui claro que não estou a tentar armar-me em intelectualóide, no que ao cinema diz respeito, por exemplo, sou um ávido amante de ficção científica e dos filmes de super-heróis, puro e fútil entretenimento.)

Na escalada do desenvolvimento humano e progresso científico o nosso antropocentrismo foi-se tornando cada vez mais egoísta e preguiçoso, degenerando numa sociedade moderna de indivíduos egoístas e embrutecidos. Transformámos as carências e necessidades de outrora em despesismo e desperdício. Usamos, abusamos e deitamos fora, “como uma chiclete”, produtos e pessoas quer com a mesma facilidade, quer com um à vontade que, mais do que preocupante, nos deveria importunar e envergonhar. Pelo que, quando bem vistas as cousas, a actual urgência climática seja fruto, acima de tudo, de uma urgência social advinda dos excessos e facilitismos do antropocentrismo social a que vivemos subjugados. É urgente e vital transformar-mo-nos enquanto sociedade, sabermos “ser homenzinhos e ser capazes de pôr o dedo na ferida” de modo a mudarmos esta visão antropocêntrica, de consumo e abuso, para uma essencial visão geocêntrica em que nos revejamos no mundo, ao invés de querermos e ansiarmos por que o mundo nos venere e se reveja em nós.

Enquanto não soubermos entender-nos e compreender-mo-nos a todos enquanto espécie e nas nossas diferenças (identidades, etnias, credos, necessidades, etc.), assim como aos restantes seres vivos, sejam eles plantas ou os outros animais. Enquanto não nos aceitarmos como parte de um mesmo planeta e ecossistema, jamais seremos capazes de nos integrarmos e melhorar, quer enquanto indivíduos, quer enquanto sociedade.

A urgência climática que hoje enfrentamos é, principalmente, fruto desta grave urgência social, é tanto o alarmante sintoma como a infortuna doença de uma sociedade sofrendo de uma desesperante crise de valores humanos e corrompida pelo nocivo egoísmo do capitalismo. Não temos de ser todos vegetarianos, nem “amantes dos animaizinhos”, mas temos todos de aprender a ser tolerantes e a fazer parte, e a nossa parte principalmente, dum ecossistema “geo-orgânico” global.

Percebendo que os limites da liberdade servem não como protecção singela dos “sentimentos” dos outros, mas como garantia da nossa humanidade e dos nossos direitos e futuro; Nosso a curto prazo e dos nossos descendentes num futuro que se quer próspero e pacífico. Quando olhamos para o nosso umbigo não podemos deixar de pensar que também o próximo tem o seu próprio umbigo e que está destinado ao mesmo fim que nós, pois ninguém ludibria a morte, não devendo depender de nós martirizar a existência de qualquer pessoa mas, pelo contrário, contribuir para que mutuamente tenhamos uma experiência o mais agradável possível nestas revoluções ao redor do sol.

Percebo que seja mais fácil estupidificar e viver estupidificado e controlado numa sociedade que facilmente poderia ser culta, educada e educativa, do que combater uma revolução que anseia e busca o conhecimento, a tolerância e a coexistência. Mas não percebo como se pode, livremente, aceitar a repressão e os arreios e converter-se em oprimido opressor.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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