Esta semana fui andar de comboio no interior. Fiz o percurso Guarda – Mangualde na Linha da Beira Alta, uma das poucas linhas que ainda existem em funcionamento nestas regiões.

A paisagem que acompanha a viagem é singularmente bela, a eficácia do transporte, por sua vez, deixa muito a desejar. A Linha da Beira Alta necessita e aguarda por obras estruturais, as populações precisam de ligações rodoviárias entre as estações e apeadeiros, muitas vezes isolados e distantes, e as localidades onde residem, estudam ou trabalham.

O percurso corresponde a uma distância de cerca de cinquenta quilómetros, que foram percorridos em comboio regional durante mais de uma hora, sem atrasos, quando estes se verificam a demora é ainda maior. Mesmo de inter-cidades, a duração da viagem apenas desce sete minutos.

Este é um exemplo que ilustra os problemas de mobilidade no interior do país: ferrovia inexistente ou ineficiente, com investimentos constantemente atrasados, ex-scuts convertidas nas autoestradas mais caras do país, circuitos e horários de autocarros insuficientes e ainda não repostos integralmente devido à pandemia.

Estes são problemas que sucessivos governos parecem querer insistir em tornar crónicos, pois estamos, mais uma vez, perante programas políticos que esquecem o interior e as suas gentes, ao confrontar-nos com o plano de investimento apresentado pelo Governo, da autoria de António Costa e Silva, que nada mais faz do que cristalizar a visão de um interior de paisagem e floresta, fontes de alimento para centrais de biomassa ou projetos de extração mineira.

As pessoas, as suas necessidades, a coesão territorial que para além de conceito signifique um verdadeiro investimento no interior e na diminuição de assimetrias territoriais, ficam esquecidas. O investimento na ferrovia, um transporte de futuro nas áreas ambientais, económicas e sociais, fica aquém da necessidade.

O Bloco de Esquerda já apresentou o Plano Ferroviário Nacional, que defende que todas as capitais de distrito devem estar ligadas por ferrovia, tornando-o um meio de transporte habitual para as populações. No entanto, agora que estão a ser planeados investimentos na ferrovia, o interior, onde de ferrovia já pouco ou nada existe, fica novamente de parte, quando deveria ser prioritário!

É urgente alterar o paradigma de prioridades de investimento, não dotando, sistematicamente, o interior e quem lá vive ou gostaria de viver mas não tem condições para tal, ao esquecimento. Se queremos um país e uma sociedade mais resiliente a crises como as que temos tão presentes, sejam elas sanitárias ou económicas, necessitamos de coesão territorial; concentrar 45% da população nas áreas metropolitanas de Lisboa do Porto, está provado, que não é uma solução viável.

Esta alteração de paradigma terá obrigatoriamente que passar pelos transportes, pela mobilidade, pelos acessos, por uma rede que garanta às pessoas capacidade de deslocação, autonomia, acesso a serviços e qualidade de vida. Só assim, será possível o desvio da trajetória de crescente isolamento e despovoamento das belas, ricas e extensas terras do interior.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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