Tenho 30 anos e sou natural de uma vila do interior de Trás-os-Montes, terra que me viu nascer e crescer até aos 18 anos, altura em que fiz malas e segui rumo à capital de distrito para me formar em engenharia.

Terminado este percurso trazia a ilusão de uma recém-licenciada: de conseguir o meu primeiro emprego, a minha independência. Por mais locais de publicação de empregos que visse na minha área de formação, nada aparecia excepto nas grandes cidades.

Tentei ser empreendedora, criei o meu próprio emprego. Mas excluindo todas as dificuldades de se ter um negócio próprio, acrescem-se as dificuldades de esse negócio ser no interior mesmo que seja de informática. Empresas precisam de fazer contactos, de ir a eventos, de ter parcerias para melhorar, para se manter atualizados em métodos de trabalho e para conseguir clientes. Mas quase tudo acontece em Lisboa, às vezes no Porto. Quantas e quantas vezes a viagem entre Lisboa e Vila Real foram realizadas no mesmo dia. Cansaço, desgaste, tempo, dinheiro? Apostar no interior compensava isso. Das entidades oficiais nem um único apoio.

Em 2018, 28 anos depois desisti do interior. Não dava mais! Esforçava-me muito, mas eu queria mais, queria poder voar, queria que os meus pais sentissem que todos os dias que trabalharam no campo valeram a pena, porque eu estava bem, feliz, que eu estava a viver a vida.

Mas a verdade é que ser jovem no interior e trabalhar não nos permite viver, permite-nos SOBREVIVER. Trabalhamos muito, mas não conseguimos ter a cultura, os serviços, a diversão, as oportunidades, o que é banal em qualquer outra cidade do litoral. Quantos quilómetros temos de fazer para ir a uma consulta de especialidade, ou a uma maternidade? E os transportes públicos, ao fim de semana então?!

Trabalhos para jovens nas cidades do interior são poucos, precários, pouco valorizados, roçam a exploração alguns deles e são muito pouco remunerados.

Quantos dos meus colegas de escola não migraram para o estrangeiro? Muitos, muitos mesmo. Algo que acredito ser a realidade de muitas aldeias do interior que cada vez mais se encontram entregues àquelas caras que sempre conhecemos, já muito marcadas pelos longos anos de trabalho.

E dos meus colegas que foram para as faculdades quantos voltaram para as suas terras? Poucos. Sendo que nas cidades pequenas o emprego é muito focalizado em instituições camarárias, misericórdias ou outro pequeno comércio maioritariamente de cariz familiar que oportunidades os jovens têm?

Jovens a trabalhar em supermercados, em projectos sem grande progressão de carreira nem salarial, jovens a recibos verdes precários, jovens a aceitar estágios emprego para projectos camarários em que eles comparticipam a parte correspondente à câmara, jovens que à atividade semanal juntam sessões de trabalho no campo para conseguir ter algum dinheiro extra, porque o que recebem mensalmente não lhes chega.

Se procurarmos vemos notícias de que em Vila Real entre 2010 e 2018 “aumentaram as empresas e diminuíram os desempregados”. Mas e Alijó, Murça, Valpaços e muitas outras pequenas cidades ou vilas do interior? Essas não! Dessas há poucos dados e de difícil leitura. Por exemplo, segundo o IEFP em Outubro de 2020 registaram-se no concelho de Alijó 148 novos desempregados com menos de 35 anos, em Murça 61 e em Valpaços 161. Estes números comparando com o total até são valores semelhantes ou até inferiores às restantes idades, quer então dizer que os jovens estão bem e com emprego? Não!! Porque o que estes dados não nos dizem é a percentagem de jovens que estão no desemprego em relação ao total de jovens que realmente ainda estão a morar no interior. E se essa percentagem, a de jovens, em relação à população total está ou não em valores semelhantes.

Todos nós vemos no dia-a-dia que aos poucos os jovens se vão mudando e saindo das suas cidades, alguns vão por opção, outros até querem ficar, mas são obrigados a ir. Essa realidade é a que os dados não nos dizem, mas é a que vemos todos os dias.

Foram criadas medidas como o “Apoios à mobilidade geográfica” e “Emprego Interior MAIS” por exemplo, para quem quer retornar ao interior: Agora com o teletrabalho, pode ser que exista alguma possibilidade, ainda que pequena. Mas e apoios para os que nunca saíram de lá? E verdadeiros apoios e investimentos para fixar empresas de modo a poderem criar mais emprego, com qualidade, fornecer ferramentas e não estes apoios que a longo prazo pouco eficazes são.

Desafio-vos a fazer uma reflexão sobre o interior. Vamos pensar em que oportunidades de emprego existem no interior capazes de dar uma vida estável. Oportunidades para que em situações de gastos extras, uma avaria no carro, por exemplo, não coloque os jovens em sufoco ou não os obrigue a recorrer aos pais porque mesmo trabalhando não conseguem ter esse dinheiro.

Sendo assim, será que fui eu que desisti do interior ou foi o interior que desistiu de mim?

Nascida em Valpaços, licenciada em engenharia pela UTAD. Ativista inconformada, fui membro da Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Neste momento mesmo distante não deixo de lutar contra as desigualdades do interior.

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