O melhor do cinema em 2021

Apesar de tudo (da pandemia), 2021 foi um ótimo ano para o cinema, no que a diversidade e qualidade diz respeito. Tudo aquilo que não estreou em 2020 foi adiado para 2021, o que fez com que este fosse um ano de boas colheitas cinematográficas.

Estrearam muitos filmes nas salas de cinema portuguesas este ano, de cinematografias diversas, de estilos diversos, de origens diversas. Se 2020 foi um ano de crise (profunda) para as salas de cinema nacionais e mundiais, 2021 foi o primeiro ano da sua recuperação. Segundo os dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), já foram ao cinema (em Portugal) mais de quatro milhões e meio de espectadores às salas de cinema, batendo assim aquele que foi um dos piores anos de sempre, 2020, em que se registaram menos de quatro milhões e bilhetes vendidos. Continua a ser um número muito inferior ao que estávamos habituados antes da pandemia, mas demonstra que em 2021 houve uma recuperação significativa.

2021 foi também o ano da afirmação do streaming, demonstrando como o paradigma mudou e veio para ficar. O modo como vemos cinema está a mudar a grande velocidade, levando a que muitos filmes estreiem diretamente em plataformas de streaming. A Netflix, a Disney+ e a Apple TV+ são exemplos disso, assim como a HBO Max (que só chega ao mercado português em 2022).

Apesar de tudo (da pandemia e das muitas estreias em sala e em streaming), não vi tudo o que queria ver em 2021, como “Três Andares”, de Nanni Moretti, “Quo Vadis, Aida?”, de Jasmila Žbanić, “Nocturno”, de Gianfranco Rosi, ou “A Mão de Deus”, de Paolo Sorrentino, e que certamente estariam nesta lista, que vale o que vale.

Mas do que vi estes foram os melhores, na minha opinião. Entre estas obras podemos: sentir as feridas abertas de uma Espanha que tenta ignorar o seu passado sombrio (“Mães Paralelas”); conhecer as memórias de uma família em forma de poema (“Metamorfose dos Pássaros”); ficar chocados com as diferenças entre classes sociais (“Nova Ordem”); viajar no tempo e imaginar uma América do século XIX que vê a sua primeira vaca chegar ao continente (“First Cow”); evocar a memória da ilusão que foi o regime Estalinista e daqueles que se lhe seguiram (“Caros Camaradas!”); ou (re)visitar um dos períodos mais belos de Portugal, o pós 25 de abril, onde a revolução sexual e a descoberta do corpo foi a primeira liberdade conquistada (“Prazer, Camaradas!”), filme ousado e atípico no panorama português.

Por fim, o destaque para o mais poético de todos e um dos acontecimentos cinematográficos do ano em Portugal, “O Movimento das Coisas”, o único filme da realizadora portuguesa Manuela Serra, que estreou (finalmente) comercialmente nas nossas salas de cinema, passados mais de 30 anos. Um filme sobre o universo do mundo rural do norte de Portugal, onde habitam quotidianos e silêncios. Um filme de gestos, de sons e de imagens poéticas. Este foi certamente o filme que mais me marcou em 2021.

Para terminar este breve balanço de final de ano, assinalo ainda duas perdas que mais me marcaram em 2021: a da lenda da Nouvelle Vague, o ator Jean-Paul Belmondo (“O Acossado” e “Pedro, O Louco”), e o lendário ator canadiano Christopher Plummer (“Música no Coração”).

Esta é a minha lista dos dez melhores filmes que vi em 2021, sem qualquer ordem de preferência:

“O Movimento das Coisas”, de Manuela Serra

“Caros Camaradas!”, de Andrey Konchalovskiy

“First Cow”, de Kelly Reichardt

“Mães Paralelas”, de Pedro Almodóvar

“Prazer, Camaradas!”, de José Filipe Costa

“Metamorfose dos Pássaros”, de Catarina Vasconcelos

“Nova Ordem”, de Michel Franco

“Diários de Otsoga”, de Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes

“Minari”, de Lee Isaac Chung

“O Poder do Cão”, de Jane Campion

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Portuense mas reside em Viseu desde 2015 e é apaixonado por cinema e política. É administrador do site Cinema Sétima Arte, programador de cinema no espaço Carmo 81 e fez parte da equipa que reabriu o Cinema Ícaro, em Viseu, com o Desobedoc 2018. É ativista na Plataforma Já Marchavas, que organizou a 1.ª Marcha LGBTI+ de Viseu, em 2018.

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