A jangada de Medusa ou o naufrágio do Instituto dos Registos e Notariado

“E nem faltam os actos de canibalismo, já que o IRN persegue os que efectivamente trabalham e dão o corpo ao manifesto no terreno, incensando os medíocres e inertes! Quem nada faz, nunca falha e até é promovido a inspector de modo a perseguir os que fazem!”
Imagem de eportugal.gov.pt
Em 1816, o navio francês Medusa naufragou na costa do Senegal. O naufrágio foi atribuído a inaptidão do capitão, que, entre outras decisões, impediu o lançamento dos canhões ao mar. Dos 400 passageiros, foram colocados em barcos salva-vidas 250 pessoas “mais importantes”, incluindo o governador do Senegal. Sobreviveram 15 pessoas a mortes brutais e até canibalismo.
A terrível tragédia inspirou uma obra-prima da pintura ocidental, de Theodore Géricault, exposto no Museu do Louvre.
A metáfora  escolhida para o Instituto dos Registos e Notariado tem várias analogias: dentro do IRN, há duas ou três centenas de pessoas na ” jangada”, (ou seja, nos serviços centrais e em casa, os inspetores, deitados numa prateleira dourada), atirando aos chutos e pontapés os outros para o mar dos serviços externos , para que nadem entre as ondas e as tempestades do excesso de trabalho para um número de pessoas que diminui violentamente desde há 20 anos sem ser reforçada (lembremos “apenas” os 3 suicídios dos últimos dias! )A presidente, tal como o referido capitão, recusa-se a deitar a água o peso dos canhões (inspetores, pessoal supérfluo dos serviços centrais, competências excessivas) e ainda quer receber mais pesos, abrindo a porta para quaisquer  competências dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, sem saber sequer quais sejam, conforme já declarou! E nem faltam os actos de canibalismo, já que o IRN persegue os que efectivamente trabalham e dão o corpo ao manifesto no terreno, incensando os medíocres e inertes! Quem nada faz, nunca falha e até é promovido a inspector de modo a perseguir os que fazem!
O que pensa a presidente e seus acólitos que lhes vai acontecer quando acabarem de afogar aqueles cujo trabalho os mantém na jangada? O que pensam que vai acontecer aos hipócritas, aos novos inquisidores, quando já não houver judeus para crucificar, nem bruxas para queimar na fogueira?

A carne para os canhões está a acabar e depois, quando terminados os fretes à tutela na destruição de mais um serviço público, também os governadores, do Senegal ou de outras paragens e as “pessoas mais importantes” irão ser lançadas fora da jangada de Medusa e arrastadas para o fundo do mar!

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Ana Margarida Borges da Silva León nasceu em Lisboa, mas com ascendência beirã. Estudou
Direito em Coimbra e exerce funções como conservadora do registo civil. Desde cedo, esteve
ligada a associações ambientalistas e de defesa dos direitos dos animais. Melómana, estudou
piano e, neste momento, pertence ao Coro Magnus D’Om em Santa Comba Dão. Publicou uma
obra de literatura infantil e participou em duas antologias de contos de Natal. Neste
momento, está a realizar uma licenciatura em História, na Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra.

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