Foto por Hipersyl, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Não foi a casa que me viu crescer e onde fui protagonista de imensas histórias, que já nem recordo, essa é moderna ainda lá está! Nem tinha sequer a opulência da vivenda da qual era anexa, mas foi casa do meu avô, portanto, mais do que o bastante para que o imóvel me nutrisse especial carinho. Já a vivenda, essa tinha outro lugar e outro simbolismo na história da cidade. Ficava ao lado do antigo cinema, actividade de que também já só resta a memória, e, por pequena e breve que essa fosse, era história, numa pequena e jovem cidade já sem muita para contar e cada vez mais desprovida de gentes para a narrar. O terreno estava para venda há muito, o destino era previsível, tem sido assim por cá. A cidade descaracteriza-se, perdendo por terra os emblemas da sua história, e, no seu lugar, nascem as grandes obras do futuro, prédios novos plenos de comodidades e ócio, com os seus traços de modernidade. Porém, as pessoas que os deveriam habitar não estão cá para ficar; é a praga do Interior, ser incubadora de mão-de-obra para o Litoral. Talvez a ligação emocional me tolde as ideias, mas creio ser necessário e importante preservar a identidade das localidades, quiçá seja apenas um “velho do Restelo”, incomodado com o progresso e a mudança… Prefiro pensar que não, que sou apenas alguém que gosta de ver as localidades briosas de si, da sua identidade, dos, “aqui morou x”, “ali era a loja de y”, ao invés do, “aqui dantes havia uma casa assim e assado”, “além, onde estão aqueles prédios novos, era a antiga moagem, trabalhava lá muita gente, agora já não há aqui nada”.

Entristece-me que a solução seja deitar tudo abaixo para erguer prédios e mais prédios.  Nem parques, nem jardins – ainda que, finalmente, esteja em curso a obra do, há muito esperado e prometido, parque urbano – Macedo de Cavaleiros é uma localidade, numa região verde, alheada da natureza, onde o mais destacado jardim, o Jardim 1.º de Maio, em frente aos Paços do Concelho, é mais uma praceta de granito (lamento a ignorância se a pedra for outra) com um breve espaço verde, do que um jardim propriamente dito, era mais correcto e justo chamar-se Praça, Terreiro, ou Rossio 1.º de Maio, porque de jardim municipal, em proporção, tem muito pouco. Comparando com as localidades do distrito, Macedo de Cavaleiros é uma cidade feia, cujos espaços verdes são os das áreas ao abandono, à espera duma negociata imobiliária, é uma vila com pressa de crescer, cujo planeamento miserável, favorece o betão e o interesse dos construtores, mas esquece, infelizmente, que uma localidade deve ser agradável para viver, que precisa de amplos espaços verdes para respirar o ar puro, tão invejado pelo Litoral; precisa de edifícios que contem a sua história e relembrem que aquela, outrora, quinta, agora é cidade e capital de concelho, orgulhosa dos imóveis que contam a sua história, com praças, parques e jardins verdes, com menos cantaria e mais natureza, para passear, relaxar, sentar e sentir, viver a cidade. E a pedra, a cantaria, essa deve deixar-se nos imóveis que contam a curta, mas bela história desta terra, que demonstram as suas raízes, que dizem de onde vieram e quem são as gentes que fizeram crescer e que mantêm a bater o Coração do Nordeste.

Do Dr. Luís Olaio, resta o nome na rua, a casa está no chão; em breve o betão, ocupará o seu lugar e há-de crescer mais um prédio de traços modernos em Macedo, menos um parque, menos um jardim, menos um espaço de lazer para a população, menos um pedaço de história, mais uma construção banal. Numa região tão dependente do turismo, falta história visual e emocional, falta o espaço acolhedor e falta verde em Macedo de Cavaleiros, a cidade precisa, em si, de mais da natureza que a envolve. E precisa do betão, é claro, não clamo que se trave o progresso, mas creio ser importante repensar a sua distribuição, porque de que vale uma cidade sem história, sem identidade, sem nada para “turistar”, quando se quer cativar quem vem de fora? Quem foge da selva de betão, não vem em busca do arbusto de betão, quer ver e viver Trás-os-Montes. E quem vive em Macedo, quer sentir e viver Macedo com orgulho da sua terra.

Não vejo neste processo de desenvolvimento, que nos entregou um presente de deriva e perda, auspício de um futuro próspero, vejo, isso sim, um futuro de fachada. De fachada de edifícios vazios, de gente e de serviços, e de uma fachada de cidade, sem história para recordar, sem identidade para revelar e sem futuro para aguardar.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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