Neste dia 1 de Maio vou ficar em casa. Nesta data tão próxima, tanto no tempo como nos valores, do 25 de Abril, não será “entre flores, sorrisos e cantos, [que] milhões de corações celebrar[ão] o trabalho e a liberdade.” Vou ficar em casa, como milhões de portugueses, e muitos milhões mais por este globo, em isolamento. Vou ficar em casa, porque posso, tenho casa onde ficar e condições para a desfrutar. Muitos outros milhões, cuja profissão é essencial e basilar na consagração da sociedade e das comunidades e cujo trabalho previne, combate, protege e, no mínimo, atrasa a escalada da pandemia, estes muitos milhões não vão poder ficar em casa, protegidos e em conforto com os seus, continuarão incansáveis, apesar de já esgotados, na linha da frente, arriscando-se e encarando em primeira mão as adversidades. Neste dia 1 de Maio vou ficar em casa em segurança,  na sua segurança. Mas ficarei em casa sem jamais esquecer os direitos, o respeito, a dignidade e a igualdade no trabalho. Não esquecerei que há muita gente, ainda, que não vê estes seus direitos e a sua liberdade respeitados, que vê a sua fome, o amor aos seus, as suas mais básicas necessidades, serem usados como chantagem para abusar e explorar a sua força e a sua vontade. Não esquecerei que não é com palmas (por mais que sejam merecidas e bem intencionadas) que a comida chega aos pratos destes, ou quaisquer outros, profissionais, nem que a renda da casa, da creche, ou o pagamento de qualquer despesa essencial é garantida mensalmente.

Não esquecerei, também, que numa altura em que se pede bom senso, responsabilidade e solidariedade, é sempre de quem menos tem que partem os exemplos de bondade e fraternidade, enquanto os bolsos milionários distribuem entre si os dividendos do muito suado esforço dos trabalhadores menosprezados. Não vou esquecer que discursos que “dizem as verdades” só incomodam pelas mentiras que descaradamente contam, falando de bolos para distraírem a fome, enquanto passam uma mão nas costas aos patrões e com a outra metem mais um milhões em cada bolso; enquanto assinam acordos vergonhosos, fazem passar leis criminosas e ajudam na fuga ao fisco. Não, não vou esquecer que o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e demais trabalhadores do estado eram, para os senhores “da verdade” e do “benfazejo e moralizador liberalismo económico”, gorduras caprichosas que era imperativo cortar; e agora, enquanto lhes convém, são o herói para louvar. Para estes senhores, apenas por agora e por interesse, ao estado já compete assumir a responsabilidade que antes acusavam de abusiva e intrusiva. Não, não esqueço. Os meus heróis e os meus valores não mudam com a maré, nem como camisas!

Os abusos laborais, uma vez mais, expostos por esta nova crise; assim como a relevância social de profissionais e profissões cujas lutas e reivindicações foram antes, e injustamente, julgadas como caprichos, vêm apenas demonstrar que ao fim de cem anos os “Trabalhadores [continuam] a não ter nada a perder, sem ser as suas correntes…” e este dia, esta data, deve relembrar a quem esqueceu, e repetir a quem não esquece, a importância dos trabalhadores se unirem e lutarem pelo que é seu e devido. Os interesses dos patrões, e dos seus defensores, estão visível e cruamente expostos todos os dias, na sua desvalorização dos trabalhadores e das suas vidas, afirmando que há interesses superiores à vida das pessoas, defendendo, em autênticos atentados contra a vida e a dignidade, que os trabalhadores sejam, criminalmente, sujeitos a contrair uma doença grave. Enquanto eles, no seu conforto, nas suas mansões, nos seus iates, na sua demagogia e falta de vergonha, contam milhões e choram os tostões que, a custo de muitas lutas e demasiadas vidas, são obrigados por lei a pagar. Porque se não houvera leis, nem um agradecimento achariam devido, àqueles que, todos os dias, suam as estopinhas e são espezinhados, para que eles conduzam o seu jaguar e comam o seu caviar. Os tempos mudaram, venceram-se algumas batalhas, mas a luta persiste. Enquanto o monstro do Capital insistir em diferenciar-nos, em menosprezar-nos, em segregar-nos e explorar-nos; enquanto não houver justiça, terá de haver luta.

Neste dia 1 de Maio vou ficar em casa.  Mas ficarei em casa sem jamais esquecer.

 

1 – Notícia do DN a 3 de Maio de 1974.

2 – Slogan de um cartaz russo, de 1919, alusivo ao 1.º de Maio.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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