Um pouco por todo o município do interior que se preze, os autarcas vão implementando medidas variadas para fixar ou atrair populações nos seus concelhos. Ele é o subsídio para nascimentos e casamentos, para fixação de jovens casais, para os estudantes universitários…; eles são os cartões dos jovens que lhes asseguram diversos descontos; ele é a isenção de impostos municipais para empresas forasteiras que se fixem no território; ele é o euro simbólico por m2 de área oferecido pelos terrenos das zonas industriais para captar investimentos. A imaginação dos edis não tem limites para estancar o despovoamento do interior.

Os eleitos do povo nas pequenas vilas não se resignam ao fado e tudo parecem fazer para inverter a situação de desertificação humana. E se surge uma qualquer ideia no município vizinho, logo tratam de a pôr em prática para não destoar da dedicação do colega. Depois desdobram-se em entrevistas, culpam o governo do desprezo a que votam as suas gentes, vangloriam-se das medidas corajosas, ouvem em “pose de estado” sentidas homenagens dos seus correligionários e adversários políticos nas assembleias municipais e dormem o, que pensam ser, o justo sono do dever cumprido.

Por vezes, o circo mediático das televisões e dos jornais de referência dão eco à notícia caricata do empenho do senhor presidente da Câmara ou do presidente da Junta daquela aldeia de nome esquisito e até impronunciável. O citadino sorri e refastelado no sofá lastima dos desgraçados que habitam lá muito longe na província e planeia, num tempo não muito distante (quiçá depois do Algarve e da viagem ao Brasil) visitar a “reserva rural”. Assim divertido, alivia do stress traumatizante de mais um dia desgraçado de trânsito. Então o país vai dormir aliviado e bem de consciência, pois os autarcas estão a salvar o interior do despovoamento.

Só que os remédios caseiros nada resolverão numa doença já crónica e profunda. Estas pequenas tisanas são meros soporíferos que enganam os tolos e escondem a verdadeira cura. Os subsídios e outros que tais são fogos fátuos que não fixarão nem atrairão de forma consequente alguém. «As pessoas ficam onde tiverem emprego», é a conclusão simples e crua. Os indivíduos que não tenham possibilidades de obter o seu sustento num determinado lugar, pura e simplesmente procuram outro.

O despovoamento do interior só se resolverá com políticas corajosas da administração central porque até aqui, as grandes apostas dos sucessivos governos situam-se no litoral.

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Natural da freguesia de Selores, concelho de Carrazeda de Ansiães.
Professor do 1º Ciclo do Ensino Básico, mestrado em cultura portuguesa, doutorando em língua e cultura portuguesa. Socio-fundador da Cooperativa Rádio Ansiães e seu diretor entre 1987 e 1997. Colaborador de vários jornais locais e regionais.

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