2020 foi um ano que se estreou com o assassinato de um importante militar iraniano, o que podia ter desencadeado uma guerra tendencialmente mundial. Tal não aconteceu! No entanto, outra “guerra mundial” surgiria como o aparecimento da maior pandemia dos últimos cem anos. O vírus espalhou-se e, a doença covid-19 propagou-se por todo o planeta. Outras coisas aconteceram: escolhas eleitorais disputadas e contestadas, manifestações, acidentes horrendos, o ressurgimento de movimentos xenófobos e fascistas, a par de muitas quarentenas.

Logo em janeiro, estávamos no dia 23, na Austrália, a par de 11 milhões de hectares de floresta, cerca de um bilião de animais foram vítimas dos fogos florestais. Por cá, meses depois, um incêndio levou à perda de 54 animais, no canil Cantinho das Quatro Patas em Santo Tirso. 

E no mundo muita coisa aconteceu, maioritariamente por causa do vírus iníquo, que nos assolou e ainda assola. É difícil escolher acontecimentos, quase todos maus e alguns poucos bons neste ano de 2020 que findou. Relembro o cancelamento dos Jogos Olímpicos, que iriam ter lugar em Tóquio, situação que apenas tinha acontecido durante o decorrer das Guerras Mundiais e por cá pela primeira vez, o Santuário de Fátima não teve peregrinos nas cerimónias de 13 de maio. A pandemia de covid-19, que até agora já provocou mais de 1,6 milhões de mortes, mais de 6.000 só em Portugal, foi a causadora do cancelamento destas iniciativas e de tantas outras, pelo que seria fastidioso, senão impossível enumerá-las. 

Deixaram-nos fisicamente personalidades que fizeram história: George Steiner, um dos maiores pensadores mundiais do século XX, e, mais perto de nós, partiram Vasco Pulido Valente e Eduardo Lourenço. A música ficou, certamente, mais pobre, quando Pedro Barroso nos disse adeus. A escrita perdeu Luís Sepúlveda, vítima de covid-19.

Recordo com mágoa e tristeza o grito de desespero de um cidadão afro-americano, George Floyd: «não consigo respirar». Mais um a morrer às mãos de polícias racistas e xenófobos norte americanos. O compositor Ennio Morricone partiu aos 91 anos. Fica a sua esplendorosa música refletida nas bandas sonoras de tantos filmes grandiosos. Um dos grandes futebolistas da minha geração morreu. Até sempre Diego Maradona! A voz da revolução de Abril, de Luís Filipe Costa, ficará sempre connosco, apesar deste ter partido.  O filme “Parasita” ganhou o óscar de melhor filme. Um marco bastante importante na história dos óscares com a vitória do primeiro filme coreano. E até a Mafalda ficou órfã, pois o seu “pai” Quino faleceu em 2020.

Dei agora comigo a pensar em coisas boas deste terrível ano, e pensei na ciência e nos cientistas, que, com esforço e dedicação, nos trouxeram a vacina. Recordei os novos métodos de trabalho como seja o teletrabalho e o alargamento do uso de ferramentas tecnológicas a pessoas que jamais pensariam em utilizá-las. Mas o mais importante, estou certo, foi a capacidade de transformação de cada um de nós. Esta transformação foi sem dúvida uma imensa lição que aprendemos em 2020. O ser humano renova-se perante a mudança e o imprevisível. Como dizia Manuel Alegre na sua Trova do Vento que Passa, «[…] há sempre uma candeia, dentro da própria desgraça, […] Mesmo na noite mais triste».

Que venham dias melhores a começar já em 2021!

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Professor, de 52 anos.
É natural de Carregal do Sal, onde reside e trabalha, sendo no momento docente do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

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