25 de abril, e agora?

Como alguém o notava exibindo estupefação é sintomático do corrente estado de coisas que tenhamos de explicar aquilo que o 25 de abril trouxe de positivo, até de fraturante, em relação ao Estado Novo.
25 de Abril de 2022, no Porto. Foto Interior do Avesso.
25 de Abril de 2022, no Porto. Foto Interior do Avesso.

E as redes sociais nos dias que precederam as comemorações da data encheram-se de posts didáticos sobre estas diferenças, procurando ressaltar o salto socialmente emancipador que representa o 25 de abril em relação à ditadura salazarista.

Se pensarmos que a liberdade e a democracia deviam estar de tal modo presentes na vida coletiva tal como o ar que respiramos é igualmente de refletir na necessidade que sentimos de explicar por que razões as “conquistas de abril” nos são tão importantes. Ainda assim há um equívoco que importaria esclarecer. A força do 25 de abril, e deste em particular, não se esgota nas celebrações daquilo que a revolução dos cravos nos trouxe, na sua cisão com o passado fascista, na mera e ritualista enumeração das suas vitórias e respetiva monumentalização.

E apesar de ser uma data tão especial como o é o dos 50 anos da sua realização, por detrás do número avassalador que trouxe até às ruas está o contexto económico, social e político concreto. Não apenas os 50 fascistas com representação parlamentar, mas, também, e ainda mais importante, a precarização das relações laborais, o colapso ambiental, a inflação, o preço das casas, o SNS em rutura, a desestabilização mundial provocada pelas guerras permanentes… enfim, todas as condições que nos permitem uma vida digna em comunidade, que fazem com que esta existência coletiva tenha sentido, e que estão sob ataque cerrado, numa investida reacionária muito complexa e extremamente dura.

Por isso a centelha que fez destas celebrações um momento tão especial e inspirador não pode nem deve ser dissociada do campo de combate particular em que se inscreve. Com o 25 de abril não se rememora apenas o que já foi feito até aqui, mas, muito mais significativo, a vontade popular que é preciso recuperar para “fazer o que ainda não foi feito”. Não é o passado que o 25 de abril glorifica é o futuro que ensaia nos combates do presente. É a representação da única frente popular imaginável para fazer frente aos desafios colossais que atravessam o frágil tecido do nosso tempo. Talvez o mais importante que fica destas comemorações seja a reabilitação do poder de acreditar.   

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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