Sabemos de cor a mais conhecida expressão do 18 do Brumário de Luís Bonaparte em que Karl Marx completa Hegel: “A história repete-se, por assim dizer, duas vezes (…) a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx). A montante da discussão sobre os secretos desígnios da história, a metáfora é teatral, ela empurra-nos diretamente para o campo da representação. A história desdobra-se enquanto farsa e tragédia, a representação que fazemos da história é teatral, é diretamente extraída da dramaturgia.

Mas nem por isso deixa de ser perfeitamente legítimo perdermo-nos em elucubrações sobre o “sentido da história”, o seu caráter cíclico, a forma como se nos impõe pela tragédia da sua repetição. Na realidade, a história assim contada é na verdade apenas uma, ainda que assumindo, como na canção do saudoso José Mário Branco, “novas qualidades”. Do que esta tentativa de penetrar no segredo da história não nos deve desviar é de atentarmos sobre a forma mesma de como a história nos é apresentada, nos é contada. Sem o seu suporte literário a história não existe. É com base nesse pensamento que Rancière, defendendo o antigo Aristóteles, argui que o suporte da história é a ficção (ver Le Partage du Sensible). Ela é o reflexo mais ou menos (in)consciente, mais ou menos assumido, de um certo modo de se correlacionarem acontecimentos, eventos, fenómenos contingentes, e de assim se produzir sentido. Mais, ela implica, desde logo e desde sempre, uma escolha existencial, um reduto de subjetividade radical, sobre a escolha tanto da dignidade do tema, como da estruturação e orientação do enredo, como da escolha dos protagonistas, como de todo e qualquer ponto simbólico que ajude à composição da constelação narrativa do historiador.      

A hermenêutica, enquanto tarefa de autocompreensão histórica, opera nessa procura de compreensão do sujeito na trama da história, sob o-ponto-de-vista da-História. A história dos povos é a história enquanto literatura. Porque na verdade não sabemos o que é isso da “história humana”, onde estamos, para onde vamos, o que fazemos, o que é que em nosso dia-a-dia e em nossa humanidade se constitui enquanto História… a não ser sob o auxílio das metáforas literárias, da composição ficcionada da história – um pleonasmo. 

Subimos ao palco da história simultaneamente como seus atores e espetadores. Medimos o sucesso da nossa “inserção social” na medida da nossa compreensão e adaptação da ideologia dominante, e a nossa “inserção heroica” na medida da nossa interpretação sobre o nosso papel individual sob o “olhar” transcendente da História enquanto submissão a um ideal, a um “ideal do eu” (Lacan). Somos instrumentos de uma ideia, de uma composição ideal da sociedade construída a partir de uma certa ideia do que deve ser a história, ou, utilizando uma expressão canónica da psicanálise, daquilo que nos é pretensamente exigido pelo “Grande Outro”. 

Enquanto herdeiros do norte-atlantismo não vivemos numa era pós-heroica, vivemos a ideologia do “fim da história”, da submissão acrítica aos ciclos económicos – como conformidade da Natureza em geral à natureza humana em particular – e à democracia oligárquica como o “melhor dos piores regimes”. O herói das nossas sociedades liberais é o herói individual, o herói essencialmente moral através do qual fazemos refletir as nossas ideias sobre o bem e o mal, a justiça e a injustiça, a força e a fraqueza, as questões filosóficas em volta do dilema e o problema da ambiguidade. Na sociedade liberal o herói não habita o centro da imanação do poder, o centro das democracias liberais é deixado deliberadamente vazio, do ponto de vista político tudo é permitido.

Se o herói liberal tem uma vocação moral, o herói socialista tem uma vocação teológica, o herói socialista é uma espécie de missionário disposto a sacrificar o seu corpo, a sua estória, o seu nome, a sua subjetividade, em nome de um tempo por vir. Se o herói liberal é-o por convicção, porque é o reflexo de decisões morais concretas, o herói socialista é-o por sacrifício, porque, na verdade, tudo o que faz é feito em nome do ideal socialista, de uma tarefa que o transcende e perante a qual ele se submete, reduzindo-se a mero instrumento das forças da história (tese que podemos remontar a Arendt e a seu Origens do Totalitarismo e que Zizek mais não faz do que repetir). Se o liberalismo é a ideologia do fim da história, do seu carácter cíclico, do seu vazio constitutivo, o socialismo vive da sublimação/hipervalorização da história, a constituição simultaneamente política e social da comunidade como comunidade de destino. Se o herói liberal é o do pequeno-burguês, do empreendedor, o herói socialista é o trabalhador e o burocrata. Se o herói liberal não se encontra no centro político, na sociedade socialista o ditador é o herói que sela o pacto entre o social e o político, entre a sociedade civil e a governabilidade. Na verdade na sociedade socialista a substância do político é o social, o vazio constitutivo do político é preenchido pela figura do herói-ditador onde se deve concentrar, em perfeita simbiose, a ideia da sociedade e a sua praxis, o germe do totalitarismo.

A história política é sempre a realização de um determinado ideal de comunidade e a história enquanto relato, enquanto historiografia, é o reflexo dessa ideia. A história relaciona-se com a vida quotidiana como a relação com o transcendente que faz da comunidade uma comunidade em sentido pleno. A história só se categoriza enquanto tal na medida desse olhar transcendente que faz das comunidades, comunidades de sentido. E o herói é o que cumpre e faz cumprir essa mesma transcendência. 

O sujeito heroico não é o que realiza o curto-circuito entre estas duas formas de refletirmos a sociedade (no seu espectro liberal ou no seu espectro socialista), mas o que faz da sua biografia particular uma missão, uma missão histórica, isto é, social. A caracterização do herói moderno é aquele que inscreve a sua vida pessoal no “palco” da história, num qualquer desígnio secreto que lhe preenche a vida de sentido. O problema é que não existe história “em si” não sendo sobre a forma da narrativa (de um contar a história enquanto história possível, limitada nos próprios termos da narrativa) e sobre a forma da representação, de um representar a história de um determinado plano e, extensivamente, de um representar-se enquanto ator nessa mesma história. 

As sociedades liberais e as sociedades socialistas – apesar do abismo que as separa – mostram-se solidárias no que respeita áquilo que é um paradigma moderno por excelência, um paradigma social: o paradigma representativo. As sociedades liberais têm a sua ampla gama de heróis, desde os heróis do empreendedorismo empresarial, passando pelos heróis no combate às ideologias comunistas e anarquistas, os heróis mediáticos mais ou menos efémeros, até aos heróis das séries de BD e das sagas cinematográficas. Apesar da lógica de atomização extrema que a sociedade liberal reproduz, a ideologia do herói é nesta proporcionalmente igualmente forte. Da outra parte, a sociedade socialista, por assim dizer, por um lado coletiviza o herói, fazendo dele um sujeito histórico, por outro lado, “depura” os homens e as mulheres de acordo com a sua lealdade ao projeto, replicando por este esforço de depuração as lógicas sociais do comportamento de seita. Numa e noutra sociedade é a “história” (enquanto narração e representação) que faz destas comunidades, comunidades políticas, isto é, passíveis de serem representadas individual e coletivamente e sobre as quais a ideologia pode operar. 

Superar o círculo vicioso entre estes dois modelos de sociedade, e como estas se refletem e nos refletem na história, é realizar o trânsito do paradigma representativo para o paradigma estético (Rancière). Sendo certo que não sabemos o que a história quer de nós, nem como vamos ser recordados. O mundo é esvaziado de sentido, as comunidades políticas são comunidades contingentes. O primeiro passo para uma rebelião política passa justamente por esse abdicar de representar qualquer herói, qualquer plano histórico. A revolução estética, como revolução democrática, é a revolução do anti-herói, nem nacional, nem imperial, nem sequer da classe. Tal não quer significar a sua ausência de compromisso para com o combate ao capitalismo, mas à inscrição do indivíduo na comunidade em que não representa qualquer papel em particular não sendo a anarquia de todos os papeis possíveis. 

O paradigma representativo é o paradigma moderno por excelência.
Como nos alerta Zizek somos responsáveis pelos nossos sonhos, cuidar da forma de como nos representamos (como somos os heróis da nossa própria vida) é o primeiro passo para uma radical transformação do nosso enraizamento existencial. O passo seguinte é o de assumirmos a banalidade não só da nossa morte física como da nossa morte simbólica, da forma como queremos ser lembrados quando chegarmos ao fim da vida. Da mesma forma que devemos assumir coletivamente o “fim da história”, não na sua perversão ideológica liberal, mas como a tarefa de libertação coletiva das diversas formas de alienação coletiva como sejam as promovidas pelas ideologias progressistas ou de matriz escatológica.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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