Foi nessa madrugada, “onde emergimos da noite e do silêncio” que nos libertámos de 48 negros anos em que a resposta para quase tudo era um não. Do analfabetismo, da pobreza, de uma guerra injusta, das desigualdades, da censura, da polícia política, do partido único. 

Eu estava prestes a comemorar 20 anos de idade e sabia que o meu destino seria participar na guerra colonial. 

Tomei consciência do peso da ditadura, a partir da farsa das eleições pseudodemocráticas de 1969, durante a chamada “primavera marcelista” que face a uma enorme contestação e pressão internacional ao regime vigente, permitiu a candidatura do Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE). 

Lembro-me das reuniões clandestinas em Castelo Branco e no Fundão, da Assembleia de Castelo Branco inúmeras vezes visitada pela polícia, da prisão de alguns antifascistas do nosso concelho, dos interrogatórios, da apreensão do calendário de JOC, pelo simples facto de incluir o poema de Vinícius de Moraes “Operário em Construção”, das conversas em surdina e de ter partilhado a amizade de um jovem albicastrense já falecido, cujo pai tinha sido expulso do ensino público e preso em Peniche pela ditadura salazarista.

Foram tempos em que me apercebi 

  • que nas escolas, os alunos e alunas estavam separados;
  • do controlo exercido pela Mocidade Portuguesa sobre a juventude; 
  • dos comunicados contra a guerra colonial e propinas, emitidos por nós com meios rudimentares e com distribuição cheia de cuidados; 
  • que as mulheres só podiam votar se tivessem concluído o ensino secundário; 
  • que as mulheres não podiam viajar sozinhas para o estrangeiro, sem autorização do marido;
  • que uma professora era obrigada a pedir autorização ao Estado, autorização para casar e provar com documentos, que o noivo recebia um salário superior ao dela; 
  • que as pessoas casadas pela igreja não se podiam divorciar; 
  • que as crianças nascidas de uma nova relação, posterior ao primeiro casamento, eram consideradas ilegítimas;
  • que os salários pagos aos trabalhadores eram do livre arbítrio dos patrões; 
  • que muitos portugueses eram obrigados a emigrar para terem uma vida melhor; 
  • que o destino dos jovens era participar numa guerra colonial injusta ou então o exílio;
  • que a censura controlava a imprensa a que tínhamos acesso, cortando a informação que não agradava ao regime e que muitos livros e discos eram apreendidos e os que passavam no crivo, só eram adquiridos de forma clandestina; 
  • que a polícia estava sempre presente nas manifestações culturais não controladas pelo regime; 

Celebramos o 25 de Abril, o dia em que acreditámos na mudança. 

O preâmbulo da CRP [Constituição da República Portuguesa] diz: “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista. Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa. A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais”. 

Num novo país em que pudéssemos viver sem mordaças e sem desigualdades, mas … passaram 47 anos – quase tantos como a noite escura da ditadura – e se é verdade que se desenvolveu o país com grandes obras, que se universalizou o ensino, que construímos um serviço nacional de saúde para todos, que instituímos o salário mínimo nacional, a verdade é que as desigualdades se acentuaram, se delapidou a indústria, a pesca, a agricultura, a floresta, a ferrovia e vastos recursos naturais, a pobreza aumentou em muitos sectores da população, a corrupção instalou-se impunemente, com conivências a todos os níveis, minando a democracia e abrindo frestas para o florescer dos saudosos do antigamente.

A política vigente até agora, tem privilegiado os grandes grupos económicos, em desfavor do desenvolvimento harmonioso do território e da salvaguarda de defesa dos nossos recursos naturais que continuam a ser, sistematicamente, violentados.

A discriminação mantem-se inalterável. A cunha continua a ser a senha de acesso a muitas oportunidades e o compadrio ou a subserviência permitem a partilha de migalhas. Persistem na sociedade e nas instituições, preocupantes manifestações de um visceral racismo estrutural, que priva os afrodescendentes, ciganos e outras comunidades racializadas, dos seus direitos fundamentais. A praga da violência doméstica é uma triste realidade no nosso país. A balança da justiça continua sem aferição, com os seus pratos em níveis diferentes para alguns sectores da sociedade.

Não aceitamos o modelo de normalidade estupidificante que nos querem impor e que é contrário aos princípios democráticos de debate das alternativas.

A mensagem de Abril continua bem viva.

A defesa dos seus valores continua a ser um imperativo para vivermos num país diferente, mais inclusivo, mais solidário, mais fraterno para todos os cidadãos.

Como diz o poeta:

E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Termino com a partilha deste poema!                                                                        

“Do que um homem é capaz” de José Mário Branco

Do que um homem é capaz?
As coisas que ele faz
Pra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida
Pra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder

Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Com as sobras do discurso
Que lhes serviu pra abrir caminho

À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
Pra consumir sozinhos

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa adentro

Como a trilateral
Com a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo pelo caminho

Pra castrar a junventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos brutais
Descendo cada vez mais
Pra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolher ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente
Pra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há princípios e valores
Há sonhos e amores
Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado
Na vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

VIVA O 25 DE ABRIL

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Nasceu em 1954 em Castelo Branco. Desde 1969 que mantém uma atividade política regular, a nível escolar, de organizações juvenis e laboral. Participante ativo em diversas associações cívicas. Trabalhou 39 anos na área dos seguros.

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