Foto de Paulo Valdivieso | Flickr

A primavera está aqui, com o equinócio a 20 de março. Uma estação de desde tempos primordiais é associada ao despertar e ao início de um novo ciclo, na Natureza, mas também nas vidas humanas que nesta estação mergulham numa nova esperança. A primavera é daqueles casos em que a definição do dicionário se mistura com o conceito simbólico e ambos acabam por ser uma e a mesma coisa.

Com o sol morno da primavera, com as suas paisagens pintalgadas de verde fresco e com o chilrear matutino dos pássaros, vêm as árvores e a floresta, a poesia e a água. Quando digo isto estou a referir-me não só às alterações próprias da estação, como também a três efemérides que se seguem ao equinócio: Dia Mundial da Árvore e da Floresta a 21 de março, Dia Mundial da Poesia, no mesmo dia, e dia Mundial da Água a 22 de março. Estas são também três coisas cuja reflexão é particularmente pertinente neste momento.

Começando pela Floresta, não é novidade que com o aumento das temperaturas se começam a temer os incêndios. Saíram recentemente dados da Linha SOS Ambiente e Território, do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente, o SEPNA, da GNR, que nos dizem que foram recebidas 1.485 denúncias de crimes contra a floresta e o ambiente no distrito de Viseu em 2020, mais 175 em comparação com 2019.

As denúncias recebidas pelo comando de Viseu constituem mais de 12% da totalidade de denúncias recebidas pela GNR em todo o território nacional. Aqui, a maioria das denúncias, 546, enquadraram-se na área da defesa da floresta contra incêndios. A floresta é, de facto, um motivo de preocupação.

A ausência de um pensamento estratégico para as nossas florestas traz, com o calor, todos os anos, a insegurança de que não se voltem a repetir incêndios trágicos. Continua a ser necessária, e cada vez mais urgente, uma mudança de paradigma na forma como concebemos o território e a floresta, que deveria ser palco de biodiversidade, equilíbrio e proteção, em vez de sinónimo de monocultura, lucro e medo.

Passando ao outro atributo do dia 21: a poesia. Continua a ser tão precisa como sempre foi. A poesia, o lirismo, a cultura, desvalorizados numa sociedade capitalista, são veículos para uma reflexão e construção livre do ser humano e do mundo que o rodeia. A poesia é a forma de expressar o que não cabe nas palavras, permitindo de forma única a construção de novas ideias, novas imagens, novas realidades, novas primaveras.

Por fim, a água, recurso vital para as pessoas, para os seres, para o planeta. Infelizmente, e nunca é demais lembrar, uma vez que o cenário se tem mantido inalterado, percorrer o distrito de Viseu sem encontrar cursos de água poluídos e descargas ilegais, por norma de grandes empresas, é um desafio. É igualmente um desafio encontrar Estações de Tratamento de Águas Residuais, conhecidas como ETARs, em pleno e eficaz funcionamento. Porque não há duas sem três fica ainda um terceiro desafio: encontrar situações destas que não estejam a ocorrer com o dissimulado aval das autarquias.

Nos já referidos dados divulgados pela GNR sobre as denúncias recebidas através da linha SOS do SEPNA, em Viseu os contactos relacionados com o domínio hídrico surgem em segundo lugar, contabilizando 184.

Não deixemos este início de um novo ciclo passar em vão, não deixemos as efemérides que a ele se colam serem despidas de significado – a floresta, a água e a poesia, que tudo perpassa, importam e devem ser cuidadas, pelas primaveras que estão para vir!

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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