Foto por Free-Photos | Pixabay

Hoje é frequente lermos nas redes sociais manifestações e opiniões de repúdio e por vezes até insultuosas contra a classe política. O agravar das condições laborais, o aumento do custo de vida, a comparação dos preços de combustíveis com países da união europeia onde os ordenados são incomparavelmente superiores aos nossos, e os casos de corrupção que vão aparecendo são exemplos que fazem com que a população em geral não veja a classe política como solução.

Neste embrulhar de revolta esquecemos o quão difícil foi conquistar este sistema de representação democrática, e que as alternativas ao sistema representativo democrático nunca tiveram bom resultado. Muito há a melhorar num sistema democrático, que tem pouco mais de quarenta anos, mas o que não devemos é deitar fora todas as conquistas de abril por não concordarmos com um ou outro ponto da democracia. Ora aqui está uma grande vantagem da democracia, podemos ter opinião livre e pública.

Com o avanço e implementação de sistemas de representação democrática chegaram outras evoluções importantes, a forma natural com que a grande parte da sociedade vê os movimentos LGBT, os movimentos feministas, os movimentos anti-racismo, os movimentos de  combate à pobreza e exclusão social, entre outros… felizmente evoluímos. Na sua essência, todos estes movimentos lutam para que  o tratamento entre pessoas seja igual, para que todos possam ter as mesmas oportunidades e para que todos possam fazer opções de livre vontade sem receio de qualquer espécie de censura. É aqui que nos devemos lembrar do que era a censura.

Neste quadro aparecem muitas vezes os falsos profetas, conhecedores exímios do canto da sereia e de outros truques, hábeis a aparecer nas horas difíceis e desaparecer quando atingem os objectivos. Vimos esses profetas, por exemplo, na greve dos  motoristas de matérias perigosas, nessa altura escrevi numa rede social o seguinte:

“DA GREVE À ORNITOLOGIA”

“Na recente greve dos motoristas de transporte de matérias perigosas, destacou-se um tal pardal. Aparentemente um porta-voz empenhado em dar voz a um grupo laboral, que, por direito próprio quer fazer valer as suas reivindicações.

Pouco tempo tinha passado da dita greve  e todos percebemos que o pardal não era nada mais que um papagaio, só queria aparecer em frente às câmaras, e que, este falso defensor perseguia sonhos pessoais, usando os dos trabalhadores.

Pois bem, o papagaio era na verdade um milhafre, sobrevoou a greve e, sem que tenha acabado o que se tinha proposto resolver, abandonou, e foi caçar para outro lado onde o protagonismo poderá ser mais duradouro…

O chamamento político chegou e como pavão aclama-se voz do povo,…. pois bem, como elemento do povo não me revejo nesta ave rara que se arma aos cucos.

    Para mim, não passa de um abutre.”

Pelos vistos eu tinha razão, tudo não passou de um aproveitamento individual de uma luta coletiva, felizmente neste caso rápido se percebeu o que estava por detrás deste profeta que pouco durou. O que me preocupa é que a história repete-se vezes sem conta. A manifestação que vimos em Lisboa no dia 27 de junho demonstra isso mesmo. Um profeta que anuncia que Portugal não é racista, mas que sugere no parlamento o cerco ou confinamento de um grupo de pessoas. Defende a exclusividade de um deputado em exercício mas não só não a prática como critica quem o faz, isto nos dias em que não falta ao Parlamento. Hoje defende causas que atacou no programa que elegeu. Coloca-se ao lado de grupos profissionais, que pela falta de condições e baixos salários para o risco que têm associado, se encontram fragilizados. Promete-lhes o que sabe não poder dar, mas afinal o quê que isso interessa, o importante é fazer barulho e ganhar votos para chegar ao poder.

Assim fazem os falsos profetas. Cavalgam nos descontentes o seu sucesso, não cumprem o que prometem e no seu autismo político são hábeis a desdizer o que que dizem. Vemos isto em vários países. Pergunto, é para aqui que queremos caminhar? Retroceder décadas?

Eu não…

 

Outros artigos deste autor >

Nasceu em Mirandela em 1976 e viveu em Trás-os-Montes até aos 18 anos, altura em que foi para o Porto estudar piano. Licenciado em produção e tecnologia da música na ESMAE.
Em 2003 entrou na RTP Porto como técnico de som. Esteve com vínculo precário até 2008. A luta por um vínculo laboral justo fez-lhe ganhar interesse pela defesa dos direitos laborais...atualmente está no SINTTAV ( Sindicato nacional dos trabalhadores de telecomunicações e audiovisuais), na qualidade de delegado sindical, e na coordenador da Comissão de Trabalhadores da RTP, entre outras organizações de activismo laboral.
Nunca perdeu a ligação a Trás-os-montes, onde desenvolve como hobby a apicultura e agricultura.

Deixe o seu comentário

Skip to content