A mobilidade é fundamental para a humanidade. Foi o que permitiu a evolução, a diversidade e, em última análise, o que permite a cultura e a sociedade. Dificilmente existiria a sociedade ultra comunicante, arquitetada em rede e imersa em informação que somos sem mobilidade, sem que um dia alguém tivesse caminhado de onde estava para outro lugar.

Entendo assim que a mobilidade é fundamental e, nessa qualidade, um direito de
cidadania e de manutenção de um status de dignidade básica para o nosso conceito de sociedade contemporânea.

As vias e acessos que percorrem um território são como o sistema circulatório que lhe dá vida. Os caminhos e o fluxo de gentes que por eles transitam são indicadores da saúde de uma dada região. É por isso sintomatologia grave quando em Portugal, no que à mobilidade diz respeito, se assista a um estagnar, ou mesmo a um retrocesso.

É grave quando populações são privadas de ferrovia.

A Estação de Viseu foi uma interface ferroviária das Linhas do Dão e Vouga. Entrou ao serviço em 25 de Novembro de 1890, foi encerrada em 1990, para desde então Viseu se tornar a “melhor cidade para viver”, a “cidade jardim”? Nada disso. A maior cidade europeia sem ligação ferroviária.

Este é um caso no meio de muitos. A displicência com que se tratam as necessidades das populações que (ainda) têm ferrovia está presente, por exemplo, no caso da linha do Douro, encerrada totalmente, para supostas obras de modernização. O encerramento total (havia alternativa!) foi justificado pela maior celeridade das obras que assim durariam três meses… tornados seis… até ver! Entretanto quem necessita dessa linha para ir estudar ou trabalhar, fica servido com uns serviços mínimos, efetivamente mínimos, que consistem na substituição da viagem de comboio por uma viagem em pesado de passageiros, com duração de cerca do dobro do tempo.

No que à ferrovia diz respeito, quase seria necessário retroceder no tempo para solucionar o seu declínio. Neste momento não há projeto ou esperança que pareça solucionar o problema da ferrovia portuguesa, cada vez mais litoral e linear, cada vez menos próxima das populações e em rede.

É grave quando as alternativas rodoviárias são pagas ou negligenciadas.

Mas se a ferrovia não existe… Qual a alternativa? A óbvia seria a rodovia. Desinvestimento na ferrovia poderia significar que o foco estaria na garantia de acessos rodoviários gratuitos e seguros… A realidade não é essa.
A realidade constrói-se por duas vias: por um lado acessos gratuitos ao abandono, sem requalificação e cada vez mais inseguros, por outro acessos pagos a valores cada vez mais elevados e dolorosos para quem não tem alternativas.
Exemplo da primeira via é a IP3, a estrada da morte crónica, que vai subsistindo, cada vez mais degradada, sempre perigosa, como Itinerário Principal, único viável, entre os Distritos de Vila Real, Viseu e Coimbra, entre as regiões de Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Litoral.
Exemplos da segunda via são os aumentos no início deste ano nas portagens das autoestradas das concessões Interior Norte (A24) e Beiras Litoral e Alta (A25). A atualização nas portagens da classe 1 foram de € 0,15 (A24) e € 0,25 (A25), o segundo e o maior aumento, respetivamente. A ideia parece ser colocar as Beiras cada vez mais à beira.

É grave quando a ligação simbólica pedonal é abandonada.

Mas quando nada resta, quando o respeito pelas gentes e pelos caminhos necessário para que vivam a sua vida não existe, o que resta?
A extinta Linha do Dão, que até 1988 fez a ligação ferroviária entre Santa Comba Dão, Tondela e Viseu, foi simbolicamente substituída em 2011 pela Ecopista do Dão, com uma extensão de 49,2 Km. Ganhou prémios e atraiu movimento, das populações adjacentes assim como atração turística, permitindo conjugar desporto e natureza.
Mas também este caminho está desprezado. Nos concelhos de Santa Comba Dão e Tondela encontra-se num estado de destruição e abandono com estragos que perduram desde os incêndios de outubro de 2017. Entretanto as obras de requalificação foram prometidas para as próximas semanas.
Será? O padrão é claro: abandono e degradação seguidos de ciclos sem fim de promessas.
Entre uma promessa e a próxima o problema vai persistindo e as condições piorando. As promessas soam cada dia mais vãs, recria-se a história do Pedro e do Lobo. A esperança por um direito à mobilidade pleno vai definhando.
São laqueados, extraídos e suturados os caminhos que ligam o interior ao resto do país.
Talvez quando todos estejamos nas bordas, nas varandas sobre o mar, e o país começar a tombar e afundar se compreenda a importância do equilíbrio territorial e da valorização do interior.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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