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O Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres celebra-se a 25 de novembro. Este dia foi decretado em 1999 pela Organização das Nações Unidas, assumindo a existência de uma violência de género, uma violência direcionada às mulheres assente numa série de crenças e estereótipos. A data está relacionada com a homenagem às irmãs Patria, María Teresa e Minerva Mirabal, presas, torturadas e assassinadas em 1960, por ordem do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo. As irmãs tornaram-se um símbolo mundial de luta contra a violência que vitimiza as mulheres.

A violência de género tornou-se um problema estrutural que afeta as mulheres aumentando a subordinação ao género masculino e que assenta na falta de igualdade das relações entre homens e mulheres em diferentes âmbitos e na discriminação persistente das mulheres. Trata-se de um problema social em diferentes vertentes: física, sexual, psicológica, económica, cultural. Não está confinada a uma cultura, região ou país específico, nem a grupos particulares de mulheres na sociedade.

Desde o início do ano já morreram, em Portugal, 32 vítimas de violência doméstica: 23 mulheres, 1 criança e 8 homens. Estes números arrepiantes enfatizam a necessidade de rutura com preconceitos e estereótipos que continuam a legitimar o injustificável, que as mulheres podem ser batidas, agredidas, violadas, violentadas, humilhadas, ameaçadas, insultadas, que são propriedade dos homens que as maltratam.

Em média, uma em cada três mulheres é vítima de violência doméstica. 85% das vítimas de violência doméstica em Portugal são mulheres. A violência doméstica contra as mulheres abarca vítimas de todas as condições e de todos os estratos sociais e económicos.

O combate contra a violência de género tem uma importante dimensão política, cívica, de promoção de uma cidadania crítica e assertiva que apele ao feminismo, à igualdade de direitos entre homens e mulheres, à libertação de padrões patriarcais. Atingir a igualdade passa necessariamente por transformar regras sociais.

Facilmente se percebe que, quanto mais pequeno e mais conservador o meio em que estamos inseridos, mais se perpetuam os estereótipos, as crenças e os preconceitos contra grupos específicos da população, e hoje importa falar daqueles que se abatem sobre as mulheres. Hoje escrevo sobre Resende. Resende é a terra onde nasci e vivo, onde cresci e me reconheci como menina, adolescente e mulher plena de direitos e deveres, tal qual como os homens. Resende é uma vila do distrito de Viseu, como tantas outras, na qual o desemprego afeta mais as mulheres, na qual as mulheres ainda são menos escolarizadas, na qual as mulheres têm menos oportunidades de subir na hierarquia social onde se inserem, na qual a violência sobre as mulheres ainda é escamoteada apesar da violência doméstica ser um crime público. Por cá, damos passos ainda muito pequenos no sentido de combater a desigualdade de género e um clima patriarcal vigente em muitas famílias. Resende é uma vila pacata onde os dias passam devagar. Onde os olhares dos seus habitantes se cruzam, por vezes, envoltos em conservadorismo.

Por sentir que tantas mulheres da minha terra precisam de voz, aceitei o convite do Feminismos sobre Rodas, feito pela ideóloga do projeto Patrícia Martins e com colaboração de outras mulheres ativistas, para promover por cá uma primeira iniciativa. Rodas porque incitam movimento, feminismos no plural porque o movimento abrange mulheres com diferentes experiências que “não aceitam que a diferença seja entendida como inferioridade”. A iniciativa foi batizada em Resende de “Roda Fora da Caixa” com o intuito de promover o pensamento fora da caixa, fora do conservadorismo, fora do que está previsto, fora do que já foi feito. Assim, no passado sábado, dia 30 de novembro, realizou-se uma Roda de Conversas. Desafiei para partilharem as suas histórias de vida, os seus percursos, os seus projetos, três mulheres: a Gisela Monteiro Borges, a Rita Menezes e a Maria Filipe. Poderiam ter sido outras mas, foram estas as que eu sabia que entrariam comigo nesta aventura. A atividade ocorreu num café/restaurante/bar “Ar d’Arêgos”, muito agradável, no qual se juntaram mais de 50 pessoas, mulheres e homens, interessados em partilhar ideias sobre os direitos das mulheres em Resende. Estar presente numa iniciativa desta natureza ou noutra situação qualquer é sempre uma escolha. Podemos escolher estar num outro sítio qualquer, a fazer uma outra coisa qualquer. Quem esteve presente escolheu estar ali, escolheu partilhar um pouco de si, escolheu ouvir histórias de vida, escolheu ouvir música, escolheu aprender mais sobre fotografia e contemplar fotografias, escolheu ouvir uma adolescente de 15 anos (a Maria Filipe) falar sobre coisas de “miúdas” que não deveriam acontecer em 2019, mas que persistem e resistem ao passar do tempo. Estiveram presentes pessoas de várias gerações (dos 12 aos 75 anos), de várias origens sociais, com formação académica e pessoal muito diferente, com percursos diversificados. Falamos todos a mesma linguagem, a linguagem dos afetos que une as pessoas, que as despe de preconceitos, que as torna mais autênticas.

Valerá sempre a pena criar desafios, criar iniciativas cívicas que movam as populações no sentido da mudança, criar espaços de debate livre, criar ambientes despreocupados e descontraídos onde a participação de todas e de todos é absolutamente garantida. Assim foi em Resende, numa tarde de Inverno, que se “rodou fora da caixa”!

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Psicóloga, de 44 anos.
É natural de Resende, onde reside, trabalha em Lamego.
Candidata independente às Eleições Legislativas pelo Bloco de Esquerda.

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