O Dia Europeu Sem Carros (DESC) teve origem no ano 2000, a partir de uma directiva europeia relacionada com a degradação da qualidade do ar nas cidades. A utilização desmedida do automóvel como transporte individual,  além dos custos sociais  com a sinistralidade rodoviária, tem também impactos muito negativos no ambiente e na saúde pública. A elevada concentração de poluentes está relacionada com a incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares. Um estudo recente na cidade de Copenhaga estima que a utilização local da bicicleta resulta numa redução anual das despesas com cuidados de saúde num valor superior a duzentos milhões de euros. Em Portugal, a utilização dos transportes públicos situa-se abaixo da média europeia e a utilização da bicicleta como primeira opção de meio de transporte, pelos portugueses, fica-se pelos 0,2%, enquanto a média europeia é de 5%. 

Portugal aderiu ao DESC desde o primeiro ano e conta hoje com muitas dezenas de municípios que  o assinalam no dia 22 de Setembro, o último dia da Semana Europeia da Mobilidade (SEM), instituída pela Comissão Europeia com o objectivo de alargar o debate sobre a necessidade de mudança de comportamentos na mobilidade, sobretudo no que concerne à utilização do automóvel nas cidades. Este ano o tema central espelha-se no slogan: MOVA-SE DE FORMA SUSTENTÁVEL. SEJA SAUDÁVEL! 

CICLOVIAS EM VISEU: ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM!

Mas, mais uma vez, o executivo do PSD na CMV, não aderiu este ano à SEM nem ao DSC. Aliás, nos anos em que anunciou que iria aderir, tem-no feito sem as exigidas medidas de carácter permanente e no caso do Dia Sem Carros não o assinala a 22 de Setembro, como em toda a Europa, mas na véspera, aproveitando o feriado municipal, dia em que o trânsito na cidade é muito reduzido.

Ainda tentaram terminar à pressa alguns troços da chamada “ciclovia”, mas nem isso conseguiram, acabando por fazer uma borrada com a pintura de uma linha verde nas ruas da cidade, para pretensamente assinalar as vias partilhadas entre automóveis e bicicletas. 

Perante as críticas de inúmeros munícipes, veio a autarquia esclarecer que se destinava apenas a assinalar o percurso mais suave para a bicicleta. Ridículo a somar ao ridículo! Ora vejam: quem desce a Av. 25 de Abril de bicicleta, ao chegar perto da CGD, ali mesmo à entrada do Rossio, encontra uma linha verde a direccioná-lo para a Rua Gaspar Barreiros, Largo Humberto Delgado, Rua dos Combatentes da Grande Guerra, Rua “do Comércio”, Praça D. Duarte, Largo Pintor Gata, Rua Nunes de Carvalho, Largo Major Teles, e, finalmente, depois de subir e descer toda a colina da Sé (percurso “mais suave?!…) chega ao Rossio. Mas, se o ciclista quiser descer até à Central de Camionagem ou a Av. da Europa (a propósito, nem nesta nova avenida foram capazes de acabar a ciclovia feita no passeio), a linha verde aconselha-o a contornar a Câmara, virar pela Av. Alberto Sampaio e descer a Rua dos Casimiros e a a R. Major Leopoldo da Silva até, finalmente, apanhar a Av. António José de Almeida. Veio a município esclarecer no seu jornal diário oficioso que os ciclistas poderão circular por qualquer via autorizada pelo Código da Estrada. Então por que raio é que andaram a sujar as ruas da cidade?!

Lembro que o executivo deliberou executar até 2018 a primeira fase da 1ª Rede Urbana de Ciclovias de Viseu. Em 2017 apenas criaram algumas pistas cicláveis nos passeios, o que me levou a chamar a atenção do executivo,  na Assembleia Municipal,  para o alerta da Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicletas – MUBI: circular nos passeios “é muito perigoso para os peões, especialmente crianças e idosos (…) e extremamente perigoso para os ciclistas”; como também diz Paula Teles, do Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade, “segundo vários dados, existem mais acidentes entre peões e ciclistas do que entre ciclistas e automobilistas”, pelo que “quando o ciclista partilha o mesmo espaço que o peão, este deve ser devidamente diferenciado e em canal próprio”); e ainda por cima a desembocarem em passadeiras para peões, sem a devida sinalização como ciclovia,  o que poderá suscitar o atravessamento da faixa de rodagem pelo velocípede, quando o Código da Estrada só o permite fazer à mão.  

Se os sucessivos executivos do PSD, desde os de Fernando Ruas ao actual, tivessem dado a devida atenção às moções e recomendações do Bloco de Esquerda, Viseu seria de facto uma cidade onde dá gosto viver. Há cerca de 12 anos, logo no primeiro mandato para que fui eleito pelo BE, a primeira recomendação que apresentei na AM foi para a instalação de mais abrigos nas paragens de autocarros, para incentivar o uso dos transportes públicos. Ainda hoje há muitas paragens, mesmo na cidade, sem abrigo, obrigando os utentes, muitos deles crianças e idosos,  a esperar ao Sol e à chuva. 

Pouco tempos depois apresentei uma Recomendação para Aumentar a Segurança dos Peões e dos Ciclistas, onde preconizava pistas para bicicletas, com separação de canais; passadeiras sobrelevadas e pintadas de cor, de forma a serem avistadas a distância segura, que não só acalmam o tráfego, como permitem um atravessamento mais seguro e confortável para os peões, sobretudo para os de mobilidade reduzida (cadeiras de rodas); redução da velocidade automóvel para 30 km/hora, começando no Rossio e centro histórico, o que dissuadiria a circulação nas praças e ruelas sem passeios à volta da Sé;a criação de circuitos escolares pedonais seguros, com o apoio das escolas, das Associações de Pais, Mães e Encarregados de Educação e da Polícia Municipal. 

Passado uma década, já começaram a surgir passadeira sobrelevadas nalgumas freguesias, mas deviam alastrar a outras artérias, já que continuam a haver demasiados atropelamentos em Viseu. 

O Bloco de Esquerda desde há muito que tem vindo a denunciar insuficiências e lacunas nos transportes públicos de Viseu (horários mal feitos e paragens sem horários, falta de horários nocturnos e ao fim-de-semana)  apesar da propalada modernização do MUV. 

SE O COMBOIO NÃO VEM A VISEU, VISEU VAI AO COMBOIO!

Os nossos autarcas do PSD e a frouxa oposição andam há anos e anos a carpir mágoas por Viseu ter perdido a ligação ao comboio. O BE anda há mais de uma década a defender uma solução que no Debate sobre Acessibilidades à Região Centro, promovido pela Proviseu, PASC e SEDES, em 2017, teve a apoio de um dos especialistas convidados, Engº Mário Lopes, professor do IST, e dos então presidentes das câmaras de Viseu e Mangualde, Almeida Henriques e João Azevedo (claro que depois esqueceram-se e não fizeram nada por isso): a ligação, por (mini)autocarro da “Central de Camionagem” de Viseu à estação da CP de Mangualde , nos horários do Intercidades, com bilhete integrado (Viseu bus- estação de destino) através da A25 (17 km, em 15 ou 20 minutos; mais rápido do que ir da Rodoviária de Sete Rios à Estação de Santa Apolónia). Note-se que esta proposta foi apresentada no passado dia 10 de Setembro, na Assembleia Municipal de Viseu, pela deputada do BE, tendo sido aprovada por unanimidade, após dissipadas todas as dúvidas quanto ao carácter provisório desta solução, até à conclusão da linha Aveiro-Viseu-Mangualde, que já teve dois chumbos da Comissão Europeia, e que, no melhor das hipóteses, não deverá acontecer antes de uma década.

 Note-se que o BE também defende esta ligação que ligará os portos de Aveiro e Leixões a Salamanca (e resto da Europa) passando por Viseu, incluída no seu Plano Ferroviário Nacional, apresentado na Assembleia da República em Abril de 2019, tendo sido rejeitado com os votos contra do PS, PSD e CDS-PP e com a abstenção do PCP e do PEV. 

Cabe aos viseenses votar no sentido de que, mais uma vez, não fiquemos parados a ver passar os comboios…aqui tão perto!

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Nascido em Viseu, no 1º de Maio de 55; comerciante e professor (não praticante) de EVT; vice-presidente da Olho Vivo – Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos e activista do Núcleo de Viseu desta ONG. Foi deputado municipal do BE, na AM de Viseu, de 2009 a 2017. É cronista em blogues e jornais regionais. Esporadicamente publica cartoons e faz recitais de poesia. É membro do CORO AZUL – grupo vocal da Associação Gira-Sol Azul.

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