Urgente: comunicação e educação inclusivas!

Por vezes (muitas vezes) andamos num tal emaranhado quotidiano auto-centrado que nos falta perspetiva, que nos falta algo como tão simplesmente perceber que há alguém ao nosso lado que experiencia o mundo de uma forma diferente. Parar, ter tempo para ter consciência das diferenças, permitiria uma sociedade aprimorada e mais à medida de toda a gente.

Perdida num desses dias de muitas tarefas e pouco tempo, durante o almoço, fiquei surpreendida e assustada com uma história que me contaram. No dia 2 de maio a Marisa Matias veio a Viseu para participar numa atividade na Escola Secundária Alves Martins. O primeiro debate televisivo com cabeças de lista das candidaturas ao Parlamento Europeu tinha sido no dia anterior. De modo a que se pudessem preparar para a visita da Marisa, professoras e professores, recomendaram às turmas que assistissem ao debate: muito bem!

Parece algo tão simples de resolver… Mas como não estamos em período oficial de campanha a cadeia televisiva (SIC) não é legalmente obrigada a incluir intérprete… Acabando por deliberadamente criar exclusão e erguer uma barreira de comunicação.

O isolamento com que a Comunidade Surda se depara é um facto. Não só as pessoas que dominam a LGP são poucas, como o recurso a intérpretes parece ser uma solução muitas vezes esquecida ou ignorada. Tarefas comuns e fundamentais no nosso quotidiano, como ir tomar um café, ir às compras, à segurança social, ao médico, ou mesmo à escola, podem ser coisas muito difíceis se as pessoas com quem nos cruzamos não conhecem a nossa língua.

Porque a conversas são como as cerejas, uma puxa a outra, contaram-me mais histórias sobre as dificuldades de pessoas Surdas desenvolverem e viverem a sua independência. Duas delas ficaram-me particularmente vincadas na memória.

Configuram-se como o não cumprimento do Artigo 26º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que começa com a frase “toda a pessoa tem direito à educação”.

Um dos casos foi a de um rapaz na Guarda que passou pelos três anos do ensino secundário sem intérprete. Haverá muitos casos destes no país? Mas muito ou poucos, porque existem sequer? É ilógica dificuldade desnecessariamente acrescida que o aluno viveu na escola ao comunicar, ao assistir a aulas em que não entendia o que era dito por professores e colegas, ou mesmo sem compreender materiais complementares de ensino (gravações áudio, vídeos, etc.).

Um outro caso é o de um jovem que quer prosseguir o ensino superior. Sonha ser engenheiro pela Universidade de Aveiro, no entanto está a repensar os seus planos, pois esta universidade não tem intérpretes, implicando que, além de todos os custos associados à frequência do curso, o jovem teria de suportar ainda os serviços de intérprete pelo valor de mais de setenta euros por hora. Impedir alguém de prosseguir os estudos, na área e instituição que deseja, porque não há comunicação inclusiva não é justo.

O sol quando nasce seria para todos, mas pelos vistos na prática não é assim, alguns têm de pagar com taxa extra o acesso ao sol.

Estes são apenas exemplos, escritos aqui por quem nada percebe do assunto e se assume muitas vezes demasiado distraída dos outros e do mundo. Mas é nosso dever enquanto humanos prestar mais atenção. Nestes casos a solução seria simples, seria recorrer à bolsa de intérpretes LGP, seria fazer a escolha da comunicação inclusiva, rejeitando qualquer falha de comunicação com quem (também) é cidadão/ cidadã de direito, pessoa e parte da humanidade.

Carolina Gomes
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Ativista. Formada em Antropologia. Deputada na Assembleia Municipal de Viseu pelo Bloco de Esquerda.

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