Foto por Paula Nunes | Esquerda.Net

De modo muito geral podemos definir a ecologia como o estudo da forma como os organismos interagem entre si e com o seu meio físico. O “mito ecológico”, o estado ideal a alcançar, seria o equilíbrio/ harmonia.

Tudo o que consta nesta definição pode ser aplicada à esfera social. Seguindo o mesmo raciocínio, a política seria como uma ecologia aplicada ao social. Isto é fácil de entender se definirmos política como uma ferramenta humana que surge para gerir e procurar a harmonia e equilíbrio nas relações sócio-culturais entre indivíduos, grupos, cidades, países…

Apesar de a noção de política que temos ser bem diferente, uma vez que esta se distancia muito do que seria o seu propósito, não deixa de ser “aquilo que é para o outro”, na procura da felicidade, justiça e bem para a sociedade.

Ecologia Social, conceito do século XIX, do geógrafo anarquista Elisée Reclus, repescado pelo filósofo Murray Bookchin nos anos 60, permite-nos pensar com maior profundidade as relações entre ecologia e sociedade. Segundo esta teoria, os problemas ecológicos estão arraigados e assentes em problemas sociais.

Uma resposta política para o mundo surge com o Ecossocialismo, que propõe uma solução que priorize critérios não monetários. Esta é uma ideologia política assente em três pilares indissociáveis e correlacionados: necessidades sociais, bem estar individual e equilíbrio ecológico.

Mas, não esquecendo que as mulheres representam pouco mais de metade da população humana, como podemos conceber conceitos de equilíbrio, social e/ ou ecológico, sem elas, sem a sua presença na ferramenta política, onde a sub-representação das mulheres é um facto?

A lei da paridade, de 21 de agosto de 2006, estabeleceu que em Portugal as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais passariam a ser compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33%. de cada um dos géneros. Em 2019 a percentagem já foi revista para 40%. Apesar desta lei as mulheres nunca deixaram de ser minoria.

Esta é uma lei forçada, artificial e longe de ser a solução ideal, não nos enganemos. Ainda assim é fundamental, pois não deixa de ser uma forma de combate ao real problema. Isto é, o problema não está na lei, reside sim nas ideias misóginas incrustadas na matriz social, de que as listas candidatas a eleições são reflexo.

O problema reside na ideia ainda generalizada de que a política é um mundo de homens.

Desde 1910 nunca houve uma mulher na posição de presidente da república.
Até hoje a única mulher a ocupar o cargo de primeira ministra foi Maria de Lurdes Pintassilgo, durante apenas 5 meses num governo de gestão.
A lei da paridade não se aplica às pastas ministeriais e mesmo havendo mulheres ministras há uma clara tendência para que se ocupem das áreas soft como cultura e educação, ficando os “ministérios duros” a cargo de homens, como a defesa ou a justiça.
No poder local o cenário não é melhor e ocorre que muitas vezes a mulher é candidata apenas para que o marido possa continuar a exercer funções, contornando a lei da limitação de mandatos.

Mas o problema não são os homens, são ideias e hábitos que devem ser desconstruídos.

Pois os homens em geral não conseguem ainda representar toda a realidade social. Neste momento têm diferentes experiências e necessidades. Aumentar a presença das mulheres na política implica um aumento de massa crítica geral, óbvia em temas como o assédio, o aborto, a maternidade e a carreira.

Existe um estigma de minoria frequente que deve ser rompido. Uma mulher, independentemente da percentagem em que se insere, tem a mesma legitimidade e direito a posição que um homem. Estigma perpetuado, também, pelo conceito de família tradicional: o homem progride, a mulher cuida.

Há um teto de vidro a quebrar. Um teto de vidro misógino, estigmatizante, assente em ideias que deve ser rapidamente questionadas e descartadas. Um teto de vidro construído e fortificado através de alianças forjadas fora de horas, no café, na esplanada, no restaurante, um networking em que muitas vezes não há espaço para a mulher.

Está na hora de toda a gente ser feminista, defender e praticar a igualdade, quebrar todos os tetos de vidro, para que qualquer mulher possa ir beber um café, ser presidente de junta, militar num partido, encabeçar uma lista eleitoral… Por uma política mais eficaz, uma sociedade mais crítica, uma existência mais ecológica. Assim se começa a construir o caminho para a harmonia e para o equilíbrio.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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